Portuguese poem
O Velho Cão
by Guilherme de Azevedo (1839–1882)
Soltava hontem já tarde um velho cão felpudo Uns doloridos ais, Em frente d'um palacio altivo, bello e mudo, Cerrado aos vendavaes.
Fazia pena ouvil-o, o misero mollosso Em seu triste chorar! Era quasi uma sombra: apenas pelle e osso E um vago, um doce olhar!...
Eis a sorte cruel do pobre que não come, Dos miseros sem pão! Em paga ainda em cima os vae tragando a Fome, A negra apparição!
Latia o cão faminto. O frio era mordente, Feroz, quasi voraz! E o pobre não sabia, em fim, que ha muita gente Que adora a santa paz.
Ora perto vivia uma galante rosa, Etherea, virginal, Que tinha um lindo collo, amava, era nervosa E a quem fazia mal,
Aquelle uivar sinistro; a ponto de em desmaios Pender a fronte ao chão! Saíram pois á rua impavidos lacaios E foram dar no cão.
—Ha no mundo um rafeiro, um velho cão esfaimado, —O povo soffredor, Que ás vezes vae ganir, com fome, o seu bocado Ás portas d'um senhor.
O resto é velha historia: ocioso é já dizer-vos O fim que ella ha de ter. A Ordem, só d'ouvil-o, alteram-se-lhe os nervos E manda-lhe bater!