Portuguese poem
Quando Martha morrer, depois do extremo arranco
by Guilherme de Azevedo (1839–1882)
Quando Martha morrer, depois do extremo arranco, Não tratem d'orações; Desprendam-lhe o cabello o vistam-a de branco Á moda das visões.
Desejo vel-a então passar d'esta maneira Depois de tal revêz, Por entre a chama azul e tenue da poncheira No fumo dos cafés.
Áquelle bom paiz das pallidas chymeras, Monotonia azul; Não temam que ella vá no fogo das espheras Queimar o véu de tulle.
Assusta-a muito o frio, a chuva, o sol dos tropicos A nuvem triste e vã, E pódem-lhe prender os pés tão microscopicos As nevoas da manhãa!
De noite ella virá com seus trajes singellos, Archanjo d'outros ceus, Nos suspiros febris dos meigos violoncellos Dizer-nos mal de Deus.
Contar-nos por que foge á doce transparencia Que o ceu formoso tem, Meiga filha gentil da mesma decadencia Que é nossa boa mãe.
Se as lagrimas de luz que chora o firmamento Em noites de luar, Ao seu pescoço nú podessem, n'um momento, Cingir-se n'um collar;
De certo ella daria ao pallido comêta E á estrella trivial, A mesma adoração que dava á cançoneta Que amou até final!
E á saida do circo, ao astro romanesco, Á noite iria, então, Contar, ainda a sorrir, o ardor funambulesco Do livido truão!
Assim, não quer ouvir aos córos invisiveis Um hymno d'enfadar, Cantado por milhões d'archanjos insensiveis Sem um que a possa amar!
E não lhe esquecem nunca os rapidos instantes Do que ella amava mais: —A vida illuminada á luz dos restaurantes N'um sonho de cristaes!