Portuguese poem
A Vida de Pedro Cem
by Leandro Gomes de Barros (1865–1918)
Vou narrar agora um fato Que há cinco séculos se deu De um grande capitalista Do continente europeu Fortuna como aquela Ainda não apareceu
Pedro Cem era o mais rico Que nasceu em Portugal Sua fama enchia o mundo Seu nome andava em geral Não casou-se com rainha Por não ter sangue real
Em prédios, dinheiro e bens Era o mais rico que havia Nunca deveu a ninguém Todo mundo lhe devia Balanço em sua fortuna Querendo dar não podia
Em cada rua ele tinha Cem casas para alugar Tinha cem botes no porto E cem navios no mar Cem lanchas e cem barcaças Tudo isso a navegar
Tinha cem fábricas de vinho E cem alfaiatarias Cem depósitos de fazenda Cem moinhos, cem padarias E tinha dentro do mar Cem currais de pescaria
Em cada país do mundo Possuía cem sobrados Em cada banco ele tinha Cem contos depositados Ocupavam mensalmente Dezesseis mil empregados
Diz a história onde li O todo desse passado Que Pedro Cem nunca deu Uma esmola a um desgraçado Não olhava para um pobre Nem falava com criado
Uma noite ele sonhou Que um rapaz lhe avisava Que aquele orgulho dele Era quem o castigava Aquela grande fortuna Assim como veio, voltava
Ele acordou agitado Pelo sonho que tinha tido, Que rapaz seria aquele Que lhe tinha aparecido? Depois pensou: — Ora, sonho É ilusão do sentido!
Um dia no meio da praça Ele uma moça encontrou Essa vinha quase nua Nos seus pés se ajoelhou Dizendo: — Senhor, olhai O estado em que estou...
Ele torceu para um lado E disse: — Minha senhora, Olhe a sua posição E veja o que fez agora. Reconheça o seu lugar, Levante-se e vá embora!
— Oh! Senhor! Por este sol, Que de tão alto flutua, Lembrai-vos que tenho fome Estou aqui quase nua Sou obrigada a passar Nesse estado em plena rua!
Ele repleto de orgulho Nem deu ouvido, saiu E a pobre ergueu-se chorando Chegou adiante, caiu Vinha passando uma dama Que com seu mato a cobriu
Era a marquesa de Évora Uma alma lapidada. Tirando seu rico manto Cobriu essa desgraçada Ela conheceu que a pobre, Foi pela fome prostrada.
Levante-se, minha filha! E pegou-lhe pela mão, Dizendo à criada dela: — Vá ali comprar um pão Que a essa pobre infeliz, Faltou-lhe alimentação.
Entregando-lhe uma bolsa Com 42 mil réis, Apenas tirou dali Um diploma e uns papéis, Não consentindo que a moça Se ajoelhasse a seus pés.
E com aquela quantia Ela comprou um tear Tinha mais duas irmãs Foram as três trabalhar Dali em diante mais nunca Faltou-lhe com que passar.
Vamos agora tratar Pedro Cem como ficou E o nervoso que sentia Uma noite em que sonhou Que um homem lhe apareceu Disse: — Olhe bem quem sou!
— Que tens feito do dinheiro, Que me tomaste emprestado? Meu senhor manda saber Em que o tens empregado E por qual razão não cumpre As ordens que ele tem dado...
Ele perguntou no sono: Mas que dinheiro tomei? Até aos próprios monarcas Dinheiro muito emprestei; O vulto zombando dele Disse: Que tu és eu sei.
— Que capital tinha tu Quando chegaste ao mundo? Chegaste nu e descalço Como o bicho mais imundo Hoje queres ser tão nobre Sendo um simples vagabundo.
E metendo a mão no bolso Tirou dele uma mochila Dizendo: é essa a fortuna Que tu hás de possuí-la Farás dela profissão Pedindo de vila em vila.
Pedro Cem zombando disse: — Vai agoureira, te some Tua presença me perturba, Tua frase me consome, De qual mundo tu vieste? Diz-me por favor teu nome?!
— Meu nome, disse-lhe o vulto, És indigno de saber, Meu grande superior Proibiu-me de dizer Apenas faço o serviço Que ele mandou fazer.
Despertando Pedro Cem Daquilo contrariado; Ter dois sonhos quase iguais Ficou impressionado, Resolveu contrafazer E ficar reconcentrado.
Pensou em tirar por ano Daquela grande riqueza Sessenta contos de réis E dar de esmola a pobreza Depois, refletindo, disse: Não se dá maior fraqueza.
Porque ainda que Deus Querendo me castigar Não afundará num dia Meus cem navios no mar As cem fazendas de gado Custarão a se acabar
As cem fábricas de tecidos Que tenho funcionando, E os parreirais de uvas Que estão todos safrejando, Cem botes que tenho no porto Todo dia trabalhando.
Cem armazéns de fazenda, As cem alfaiatarias, As cem fundições de ferro, Cem currais de pescarias, As cem casas alugadas, Cem moinhos, cem padarias.
E as centenas de contos Nos bancos depositados, E tudo isso em poder De homens acreditados, Ainda Deus querendo isso Seus planos serão errados.
Pedro Cem naquela hora Estava impressionado Quando aproximou-se dele O seu primeiro criado E disse: — Aí tem um homem Diz vos trazer um recado.
— Mande que entre a pessoa! (Ele ao criado ordenou) era um marinheiro velho, chegando ali o saudou. — Que nova traz, meu amigo? Pedro Cem lhe perguntou.
Disse o velho marinheiro: — Venho vos participar, Que dez navios dos vossos Ontem afundaram no mar Morreram as tripulações Só eu pude me salvar.
— Que navios foram esses? Perguntou-lhe Pedro Cem. Respondeu-lhe o marinheiro: — Foi “Tejo” e “Jerusalém”, O “Douro” e o “Penafiel” E os outros eu não sei bem.
Aquele ainda estava ali Outro portador bateu O empregado das vacas Contou o que sucedeu Incendiaram o mercado E todo gado morreu
Pedro Cem nada dizia Ficando silencioso. Apenas disse: — Na terra Não há homem venturoso, Quem se julgar mais feliz, É pior que cão leproso.
Chegou outro portador O empregado da vinha, Disse: — O depósito estourou Vazou o vinho que tinha Pedro Cem disse: Meu Deus, Que sorte triste esta minha!
Saiu aquele entrou outro, Um cônsul norueguês Disse: — Nos mares do norte Andava um pirata inglês, Noventa navios vossos Tomou ele de uma vez!
Meu Deus! Meu Deus! O que fiz? Exclamava Pedro Cem, Não há homem nesse mundo Que possa dizer: — Vou bem, Quando menos ele espera A negra desgraça vem!
Dos cem navios que tinha Alguns foram afundados E outros pelos piratas Nos mares foram tomados! Acrescentou a pessoa: Vinham todos carregados.
Ali mesmo vinha o mestre Do navio “Flor do Mundo” Esse fitou Pedro Cem Com um silêncio profundo Depois disse: Sr. Marquês, Dez barcaças foram ao fundo.
Quatro vinham carregadas Com bacalhau e azeite, Duas vinham da Suécia Com queijo, manteiga e leite, De todas mercadorias Não tem uma que aproveite.
Quatro dos dez que afundaram Traziam pérolas e metal Só da Ilha da Madeira Vinha um milhão de coral Topázio, rubi, brilhante, Ouro, esmeralda e cristal.
Pedro Cem baixou a vista Nada pôde refletir Exclamou: Que faço eu? Devo deixar de existir, Mas matando-me não vejo Isso onde pode ir!
Chegou o moço do campo Tremendo muito assustado E disse: Senhor Marquês, Venho aqui horrorizado, Deu morrinha nas ovelhas E mal triste em todo gado
Naquele momento entrou Um rapaz auxiliar Esse puxando um papel Disse: — Venho reclamar Tudo quanto se perdeu Na barca “Ares do Mar”
Pedro Cem perguntou: Quanto? Tirou o moço uns papéis Que se lia, entre brilhantes Pulseiras, colares, anéis Um milhão e quatrocentos E vinte e contos de réis.
Entrou outro auxiliar Disse: Eu quero o pagamento, Por tudo que se perdeu No navio “Chave do Vento” Que vinha da América do Norte Com grande carregamento.
Chegou um tabelião — Dá licença, senhor Marquês? Venho lhe participar Que o grande banco francês Dois alemães e três suíços Quebraram todos de vez.
— Lá se foi minha fortuna! (exclamava Pedro Cem) Ontem fui milionário Hoje não tenho um vintém Só mesmo na campa fria Eu hoje estaria bem!
Dando balanço nos bens Quis até desesperar Tudo quanto possuía Não dava para pagar Nem pela décima parte Os prejuízos do mar.
Exclamava: Oh! Pedro Cem, Que será de ti agora?! O pouco que me restava A justiça fez penhora! Pedro Cem de agora em diante Vai errar de mundo a fora!
Cumprir esta sorte dura Que a desventura me deu Talvez muitas vezes vendo Aquilo que já foi meu Em lugar que não se saiba Quem neste mundo fui eu.
Ali no terraço mesmo Forrando o chão se deitou Às onze e meia da noite, No sono conciliou, No sono sonhando viu O rapaz que lhe falou.
Aquele perguntou: Pedro, Como se foi na empresa? Já estais conhecendo agora Quanto é grande a natureza? Conheceste que teu orgulho Foi quem te fez a surpresa?
Metendo a mão na algibeira Dali um quadro tirou Onde havia dois retratos Que a Pedro Cem mostrou — Conheces estes retratos? O rapaz lhe perguntou.
Via-se naquele quadro Uma dama bem vestida Pedro Cem disse no sonho: Esta é minha conhecida, A outra uma pobre moça, Como fome, no chão caída?
Perguntou-lhe o rapaz: Quem é essa conhecida? — É a marquesa de Évora, E esta, que está caída? — Essa é uma miserável, Dessa classe desvalida.
O rapaz puxou outro quadro Verde da cor da esperança Onde se via um monarca Suspendendo uma balança Estava pesando nela Caridade e confiança.
Mostrou-lhe mais 4 quadros Que Pedro Cem conheceu, Tinha a marquesa de Évora Quando a bolsa a pobre deu, Que estirou a mão dizendo: — Toma o dinheiro que é teu.
No quadro via-se um anjo Assim nos diz a história, Com uma flor onde lia-se: “Jardim da Eterna Glória” presenteada por Deus esta palma da vitória.
Quem planta flores, tem flores Quem planta espinho tem espinho Deus mostra ao espírito fraco O que nega ao mesquinho A virtude é um negócio Boa ação um pergaminho
Depois que ele acordou Triste e impressionado Interrogava a si próprio: — Porque sou tão desgraçado? Achou de lado a mochila, A que ele havia sonhado.
— Será esta a tal mochila Que o fantasma me mostrou? É esse o homem que em sonho Em desespero exclamou, Na noite que a cruel sina, Em sonho me visitou?
De tudo restava apenas A casa de moradia Essa mesma embargaram Antes de findar-se o dia, Então disse Pedro Cem: — Cumpriu-se a tal profecia!
Lançando mão da mochila Saiu no mundo a vagar Implorando a caridade, Sem alguém nada lhe dar Por umas 5 ou 6 vezes Tentou se suicidar.
Ele dizia nas portas: Uma esmola a Pedro Cem Que já foi capitalista Ontem teve, hoje não tem A quem já neguei esmola Hoje a mim nega também.
Foi ele cair com fome, Na casa daquela moça Quando foi a porta dele Com fome, fria e sem força Que ele não quis olhá-la E a marquesa deu-lhe a bolsa.
A criada o viu cair, Exclamou: — Minha senhora, Anda ver um miserável, Que caiu de fome agora! — Onde? Perguntou a moça, Ana lhe disse: ali fora!
A moça disse à criada Que trouxesse leite e pão Aproximou-se dele Disse: O que tens, meu irmão? Bateste em todas as portas, Não encontraste um cristão?
Senhora! Se vós soubesse Quem é este desgraçado, Não abriria a porta Nem dava esse bocado, Respondeu ela: O conheço, Porém esqueço o passado.
Recordo-me que a marquesa Fez minha felicidade, Viu-me caída, com fome, Teve de mim piedade, Deu-me com que comprar pão E esta propriedade.
Pedro Cem se levantou, Disse: Obrigado, e saiu Andando duzentos passos Tombou em terra e caiu E umas frases tocantes Em alta voz proferiu:
Vai unir-se a terra fria O que não soube viver, Soube ganhar a fortuna Mas não a soube perder, Se tenho estudado a vida Tinha aprendido a viver.
Foi como a corrente d’água, Que pela serra desceu Chegou o verão secou Ela desapareceu Ficando só os escombros Por onde a água correu!
Eu tive tanta fortuna, Não socorri a ninguém, E todos que me pediram Eu nunca dei um vintém, Hoje eu preciso pedir, Não há quem me dê também!
Não desespero, pois sei Que grande crime expio Nasci em berço dourado Dormi em colchão macio Hoje morro como os brutos, Neste chão sujo e frio...
Foram as últimas palavras Que ele ali pronunciou Margarida, aquela moça Que a marquesa embrulhou Botou-lhe a vela na mão Ali mesmo ele expirou.
A Justiça examinando Os bolsos de Pedro Cem Encontrou uma mochila E dentro dela um vintém E um letreiro que dizia: “Ontem teve, hoje não tem.”