Versos Portuguese Luís de Camões A Huma Dama, Que Lhe Chamou Diabo, Por Nome Foã Dos Anjos

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A Huma Dama, Que Lhe Chamou Diabo, Por Nome Foã Dos Anjos

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Mote.

Senhora, pois me chamais Tão sem razão tão mão nome, Inda o diabo vos tome.

Voltas.

Quem quer que vio, ou que leo, Terá por novo e moderno, Ter quem vive no inferno, O pensamento no ceo. Mas se a vós vos pareceo, Que m'estava bem tal nome, Esse diabo vos tome.

Perdido mais que ninguem Confesso, Senhora, ser; Mas o diabo não quer Aos Anjos tamanho bem. Pois logo não me convem, Ou se me convem tal nome, Será para que vos tome.

Se vos benzeis com cautella, Como de Anjo, e não de luz, Mal póde fugir da Cruz, Quem vós tendes pôsto nella. Mas ja que foi minha estrella Ser diabo, e ter tal nome, Guardae-vos, que vos não tome.

Ja que chegais tanto ao cabo, Com as mãos, postas aos ceos Vou sempre pedindo a Deos, Que vos leve este diabo. Eu, Senhora, não me gabo; Mas pois que me dais tal nome, Tomo-o, para que vos tome.

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A HUM AMIGO, QUE NÃO PODIA ENCONTRAR.

Mote.

Qual terá culpa de nós Neste mal, que todo he meu? Quando vindes, não vou eu, Quando vou, não vindes vós.

Volta.

Reinando Amor em dous peitos, Tece tantas falsidades, Que de conformes vontades Faz desconformes effeitos. Igualmente vive em nós; Mas por desconcêrto seu Vos leva, se venho eu, Me leva, se vindes vós.

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MOTE SEU.

Descalça vai pela neve: Assi faz quem Amor serve.

Voltas.

Os privilegios, que os Reis Não pódem dar, póde amor, Que faz qualquer amador Livre das humanas leis. Mortes e guerras crueis, Ferro, frio, fogo e neve, Tudo soffre quem o serve.

Moça formosa despreza Todo o frio, e toda a dor. Olhae quanto póde Amor Mais que a propria natureza. Medo, nem delicadeza Lh'impede que passe a neve. Assi faz quem Amor serve.

Por mais trabalhos que leve, A tudo se off'receria; Passa pela neve fria, Mais alva que a propria neve; Com todo frio se atreve. Vêde em que fogo ferve O triste, que a Amor serve.

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