Portuguese poem
Vão as serenas ágoas
Vão as serenas ágoas Do Mondego descendo, E mansamente até o mar não parão; Por onde as minhas mágoas Pouco a pouco crescendo, Para nunca acabar se começárão. Alli se me mostrárão Neste lugar ameno, Em qu'inda agora mouro,
Testa de neve e d'ouro; Riso brando e suave; olhar sereno; Hum gesto delicado, Que sempre n'alma m'estará pintado.
Nesta florída terra, Leda, fresca e serena, Ledo e contente para mi vivia; Em paz com minha guerra, Glorioso co'a pena Que de tão bellos olhos procedia. D'hum dia em outro dia, O esperar m'enganava: Tempo longo passei; Com a vida folguei, Só porqu'em bem tamanho s'empregava. Mas que me presta ja, Que tão formosos olhos não os ha?
Oh quem me alli dissera Que d'Amor tão profundo O fim pudesse ver eu algum'hora! E quem cuidar pudera Que houvesse ahi no mundo Apartar-me eu de vós, minha Senhora! Para que desde agora, Ja perdida a esperança, Visse o vão pensamento Desfeito em hum momento, Sem me poder ficar mais que a lembrança; Que sempre estará firme Até no derradeiro despedir-me.
Mas a mor alegria
Que daqui levar posso, E com que defender-me triste espero, He que nunca sentia No tempo que fui vosso, Quererdes-me vós quanto vos eu quero. Porque o tormento fero De vosso apartamento, Não vos dará tal pena Como a que me condena; Que mais sentirei vosso sentimento, Que o que a minh'alma sente. Morra eu, Senhora; e vós ficae contente.
Tu, Canção, estarás Agora acompanhando Por estes campos estas claras ágoas; E por mi ficarás Com chôro suspirando; Porque, ao mundo dizendo tantas mágoas, Como huma larga historia Minhas lagrimas fiquem por memoria.