Portuguese poem
Canto quarto
I Já sobre os tetos da cidade infante Novembro as asas cálidas abria, Que mil ásperos ventos intumescem E outras tantas famosas trovoadas Clássicas, infalíveis dos bons tempos, Quando o leito buscando o forte Almada A sesta foi dormir como costuma. Cheio ainda dos gabos do Veloso, Que num longo sermão daquele dia, Com arte e jeito o nome seu alçara Muito acima das nítidas estrelas; Estende-se na cama; e a fantasia, Naquele bruxulear em que não vela Nem dorme ainda a humanidade nossa, Começa de pintar-lhe um vasto quadro De grandezas futuras. Vê as águas De Niterói rasgando a nau famosa Que o levaria às águas da Ulisséia, Para o bago empunhar do arcebispado. Nem só isso, que o papa, desejando De tal sujeito coroar os méritos, Cede à insinuação da Companhia, E lhe manda o chapéu cardinalício Com mais duas fivelas de esmeralda.
II Já mais dormido que acordado estava, E na região das lúcidas quimeras Todo se lhe engolfava o ânimo ardente, Quando uma voz subitamente o acorda. Era a terrível Ira, que tomando A figura de Vasco, seu sobrinho, Na alcova entrou bradando desta sorte: “Oh que afronta, meu tio! que desonra! Quem tal dissera? O tresloucado Mustre, O ouvidor atreveu-se...” Isto dizendo Numa cadeira cai; salta da cama Aturdido o prelado e lhe pergunta Que afronta, que ousadia, que mistério Anunciar-lhe vem daquele modo. Então a Ira, revolvendo os olhos, Com voz surda lhe diz que o fero Mustre Atrevera-se a abrir uma devassa Entre os servos da Sua Senhoria.
III Como a galinha, que travesso infante De alguns queridos pintos despojara, Na defesa da prole irada avança, Tal rugindo de cólera descreve Em quatro passos a comprida alcova O grande Almada. Súbito estacando, A vista crava no vazio espaço. Ali (milagre só da roaz cólera!) Vê a figura do atrevido Mustre; E com olhos, com gestos, com palavras O ameaça de morte e lhe anuncia Que há de eterna vergonha os ossos dele Insepulto levar de idade a idade. “Tão incrível (diz ele), enorme audácia De vir meter as mãos no que pertence À minha eminentíssima pessoa Um castigo há de ter, — exemplo raro, Que servirá de público escarmento, E de algum pasmo aos séculos futuros!”
IV Disse; e, tomado de furor estranho, Gesticulando sai; e enquanto a tarde Pela morena espádua o véu devolve Com que baixa a montanha e à várzea desce, Concentrado vagou de sala em sala.
V Longa a noite lhe foi; áspero catre Os macios colchões lhe pareciam Ao pastor fluminense, que cem vezes, Que cem vezes fechara os tristes olhos, Sem conseguir dormir a noite inteira. No cérebro agitado lhe traçava A mão da Ira mil diversos planos Contra o fero ouvidor. Ora imagina, Em saco estreito atado na cintura, Mandar deitá-lo aos peixes; longos anos Encerrá-lo em medonho, escuro cárcere; Ou já numa fogueira, concertava Pelas discretas mãos do Santo Ofício, Esmero d'arte e punição de hereges, Como um simples judeu, torrá-lo aos poucos.
VI Mas, de baldados sonhos fatigado, O prelado da cama se levanta. Enfia as cuecas, os pantufos calça E manda ali chamar o seu copeiro. Corre Anselmo trazendo respeitoso De alvo grosso mingau ampla tigela Com que o prelado consolar costuma, Antes de se voltar para outro lado, O laborioso estômago, e ao vê-lo De pé, meio vestido e tão esperto, Os olhos espantados arregala E exclama: "Santo Deus! a estas horas! Que milagre, senhor, ou que promessa Fez Vossa Senhoria que o obrigue A tão cedo deixar sua cama?" — "Anselmo, nem milagre, nem promessa (Responde o grande e valoroso Almada). Se eu fiz hoje uma cousa nunca vista, Se eu precedi o sol nesta cidade, Causa única foi um grave assunto Que o sono me tolheu a noite inteira. Ao cozinheiro vai da minha parte, Dize-lhe que um jantar de dez talheres, Sem olhar a despesas me prepare, Que hoje quero brindar por certa causa Alguns amigos meus. Do teu antigo Zelo confio, como sempre, a mesa; Deita os cristais abaixo; na de Holanda Toalha que mais fina houver na casa, Com arte me dispõe, com simetria, A baixela melhor."
VII Isto dizendo, A matutina refeição despacha; Murmurando de cólera se veste, E roxo como a renascente aurora, Chama um lacaio e um bilhetinho manda Às colunas da igreja fluminense. Tal o prudente capitão, se as armas, Que até ali defendeu, vexadas foram, A conselho convoca os demais cabos, E do ousado inimigo prontamente Decretam juntos a vergonha e a morte.
VIII Quando veio o jantar, sombrio e mudo, Sentou-se o grande Almada e, mastigando, Com distraído gesto, alguns bocados, Nenhuma frase de seus lábios solta. Debalde o Vilalobos, seu vigário, Todo se remexia na cadeira; Debalde o médio Lucas consultava Os seus colegas, desejosos todos De irem dormir a costumada sesta; A misteriosa causa do silêncio Em que o prelado jaz ninguém descobre. Enfim, o grande Almada se levanta, E para a ceia diferindo o caso (Tanto nele inda a cólera rugia!) Sem a bênção e as rezas de costume Tornou da mesa extinta ao fofo leito; Doce exemplo que os outros imitaram, E em desconto de algum perdido tempo, Dormiram muito além de ave-marias.
IX Mas o Veloso, adulador e astuto, Não conseguiu dormir. Em vão na cama As posições mudava; o pensamento Velava inteiro e afugentava o sono. Maravilha era essa, e grande, e rara, Pois entre os dorminhocos desse tempo Tinha lugar conspícuo; antes das nove, Sem embargo da sesta, era defunto, E nunca ouvira o despertar do galo.
X Quando, ao sinal da ceia, aparelhados Correram todos à pejada mesa, Antes de se sentar, silêncio pede O Veloso e, três vezes a cabeça Curvando, fala: “Se partis conosco Magnânimo prelado, as alegrias, Por que as mágoas furtais aos nossos olhos? Ah! dizei que importuna, estranha causa Melancólico véu no amado rosto Desde o jantar vos pôs! Debalde busco A razão descobrir de tal mudança. Dar-se-á que, por descuido da cozinha, Na sopa entrasse o fumo? Eu, se não erro, Vestígios dele achei, posto que a pressa Com que a sopa comi me disfarçasse De algum modo o sabor. Ou, no trajeto Daqui à Sé, algum clérigo novo Vos faltou co’a devida reverência? Contai, senhor, contai a amigos velhos Males que deles são!”
XI A tais palavras, Com o punho cerrado sobre a mesa, O prelado despede um grande golpe Que faz tremer terrinas e garrafas E apaga a cor nos lábios do Veloso. Logo mais sossegado, e perpassando Pela douta assembléia um olhar grave, Encara o pregador; e dando à fala Menos rude expressão, assim responde: “— Não, amigo, a razão da minha cólera Nenhuma dessas foi. A baixa inveja Do presumido Mustre, a quem basbaques Tecem descompassados elogios E cujo nome nas tabernas brilha, Isto só me acendeu dentro do peito Desusado furor. Vós do meu cargo Companheiros fiéis, que com diurna, Noturna mão versais minha alma inteira, Uma parte tomai da funda mágoa E ajudai-me a punir tamanha afronta!”
XII Aqui refere o caso da devassa Que aos figadais, solícitos amigos, Lhes arrepia as carnes e o cabelo, E desta sorte acaba o seu discurso: "Eu merecera arder no eterno fogo Que o cão tinhoso aos pecadores guarda, Viver de bacalhau toda a quaresma, Dormir três horas numa noite inteira, Se esse infame ouvidor, parto do inferno, Triunfasse de mim, e ao riso e às chufas Me expusesse da plebe e dos lacaios. Que diriam de mim nesses conventos, Focos de luz, onde o meu nome há muito De tão ilustre ofusca os outros nomes, Qual a um raio se vê do sol brilhante Da noite os claros lumes desmaiarem? Eia! a afronta comum igual esforço De todos nós exige. As vossas luzes Me ajudarão neste difícil caso, E se inda o mundo não perdeu de todo O lume da justiça, aquele biltre, Que tão cheio de si anda na terra, Tamanho tombo levará do cargo Que estalará de espanto e de vergonha.”
XIII Assim falou Almada, e toda a mesa Lhe aprovou o discurso. O Vilalobos, Em quem os olhos fita o grão prelado, Algum tempo medita um bom alvitre, E ia já começar a sua arenga Quando o astuto Veloso a vez lhe toma: “Minha idéia, senhor, é que esse infame Nem alma, nem vigor, nem bizarria Houve do céu, e que abater-lhe a proa O mesmo vale que esmagar brincando Uma pulga, um mosquito, uma formiga. Mas porque seja bom tapar a boca Aos vadios da terra, e porque vale, Em certos casos, afetar nas formas Tal ou qual mansidão, que não existe, Cuido que em lhe mandando uma embaixada A exigir-lhe a devassa...”
XIV “Nunca! Nunca! (Interrompe o vigário). Uma embaixada! Tratar de igual a igual a um bigorrilhas! E tal cousa, senhor, nascer-lhe pôde No claro entendimento? Todo o lustre, Valor e autoridade a igreja perde Se não falar de cima ao tal pedante, Com desprezo, com asco. Em boa regra, Cortesia demanda cortesia; Mas um vilão que a processar se atreve Os criados da casa do prelado, Em vez de uma embaixada, merecia Nas costas uma dose de cacete. Não, senhor; é meu voto que se mande Uma singela, e seca, e rasa, e nua Citação para a entrega da devassa No prazo de três dias. Desta sorte Não se abate o prelado, nem as nobres Insígnias enlameia do seu cargo, Que eles e nós todos conservar devemos Puras de vil contato”.
XV — “Mas a pena? (Triunfante o Veloso lhe pergunta). Uma pena há de haver com que se obrigue A cumprir o mandado? Suponhamos Que entregar a devassa ele recuse, Que recurso nos dais para sairmos Deste apertado lance? Há de o prelado Ver mofar do poder que lhe compete? A derrota assistir da causa sua? Humilhar-se? Eu jamais aprovaria Tão singular idéia. Uma embaixada, Sem da igreja abater os sacros foros, Com jeito e mancha alcançaria tudo, E se nada alcançasse, é tão brilhante A fama do prelado, que bastava A causa remeter para Lisboa, Que em seu favor viria o régio voto.”
XVI Acabou de falar. Então a Gula, Que presente ali estava, enquanto a Ira O belicoso espírito lhes sopra Aos duros capitães, lhes vai roendo As famintas entranhas, qual nos contam Do filho de Climene, que primeiro Ao céu roubara o lume, antes que o tempo, Longo volvendo séculos e séculos, Real tornasse a fábula do homens E nos desse o teu gênio, imortal Franklin.
XVII E depois que a discreta companhia, Por não perder o precioso tempo, Foi comendo e falando sobre o caso, Fazendo a língua dous ofícios juntos, Esta sentença lavra o grande Almada: “Acho muito cabida e boa a idéia Do pregador Veloso; mas não menos Razoável a idéia me parece Do profundo vigário. Aceito-as ambas E praticá-las vou. Desta maneira Ostento mansidão, e com mais força O golpe lhe darei se me recusa A devassa entregar. Ao mesmo tempo Alterada não vejo a paz gostosa Em que de outras fadigas descansamos. Entretanto convém que armado e pronto Vá logo o embaixador. A vós incumbo (O forte Almada ao Vilalobos disse) Da solene feitura de um mandado Co’o prazo de três dias, e com pena De... excomunhão!”
XVIII Aqui um alto grito De espanto, de terror, de entusiasmo Rompe do peito aos veneráveis sócios. Como nas horas da calada noite Uma pêndula bate solitária, Depois outra, mais outra, e muitas outras Monótonas o mesmo som repetem, Assim de boca em boca os reverendos “Excomunhão! excomunhão!” murmuram, Porventura algum deles duvidoso Se aquela vencedora espada antiga Que as heresias combateu da Igreja Empregar-se num caso deveria De tão pequena monta; mas, guardando Essa idéia consigo, que não rende Os risos do prelado nem os fartos Jantares que amiúde lhe oferece, Com todo o gosto a excomunhão aplaude Do insolente juiz.
XIX Então o Lucas Que, desde que estreara a lauta mesa, Come com quantos dentes tem na boca, Que uma assada cutia despachara, Quatro pombos, e de uma grande torta Ia já caminhando em mais de meio, A boca levantou do eterno pasto E falou desta sorte: “Bem humilde É meu braço, senhor; mas se a defesa Dos sacros foros meu esforço pede, Contar podeis comigo neste lance, E certo estou que em decisão e zelo Ninguém me há de exceder. Proponho agora Que nesta ocasião grave e solene Juramento façamos de puni-lo Ao ouvidor, e não deixar o campo Sem a honra lavar do nobre Almada”. Isto dizendo, da cadeira a custo A barriga levanta o reverendo; Todos o imitam logo, e sobre a mesa Alçam as mãos e juram de vingar-se Do presumido Mustre; e porque a empresa Novos brios pedia, em pouco tempo, Com raro esforço, toda a mesa varrem.
XX Entretanto, afiando à porta o ouvido, Longo tempo escutara o moço Vasco As deliberações do grão conselho, E receoso da tremenda guerra Que dali certamente nasceria, Pondo em risco talvez sua pessoa, Entra pálido e trêmulo na sala.
XXI Ao vê-lo demudado, os circunstantes Estremecem de susto. Qual receia Que o Mustre, sabedor do que se passa, A suas Reverências um processo Instaurara de pronto. Qual cogita Que cem homens de tropa os têm cercados E ouve já, na escaldada fantasia Ranger nos gonzos a medonha porta Do cárcere perpétuo. Tu somente, Vilalobos, e tu, Cardoso forte, O coração pacífico tivestes, E a frieza imitastes do prelado.
XXII “Ruins novas trazeis, ao que parece, Vasco! (o tio lhe diz); e suspirando O moço lhe responde: “Novas trago E penosas, senhor. Sabei que o monstro, A causa principal do triste opróbrio, O autor de tantos e tamanhos males, Único eu sou. Meu atrevido braço Armou os vossos servos; é seu crime Verdadeiro, e fui eu...” Calara o resto, Algum tanto vexado, mas o tio, Contraindo as grisalhas sobrancelhas Com que faz abalar toda a família, Nestas ásperas vozes logo rompe: “— Que! um crime! Houve um crime! E qual? e quando? E por que causa?” “— A causa era a mais pura: Amor...”
XXIII A tais palavras o auditório De boca aberta fica, mal ousando Acreditar em tanto atrevimento E curioso de saber o resto. Mais que todos os outros, o Veloso Interrogar quisera o moço Vasco; Contudo nada diz, que é regra sua Sondar primeiro ao ânimo ao prelado, De quem copia sempre a catadura E é turvo se ele é turvo; alegre, alegre.
XXIV “Ora pois! fosse a causa amor ou ódio (O tio diz) importa nada ao caso. Nem por isso uma linha só recuo Do meu procedimento. Desejara, No entanto, a história ouvir do teu delito. Esta grave assembléia certamente Preferira entreter-se de outras cousas Mais chegadas à nossa dignidade E santa condição; mas não importa; Um dia não são dias, e é de jeito Que instruamos de todo este processo”. Isto dizendo, a uma cadeira vaga Que defronte lhe fica, estende o dedo. Vasco obedece. A douta companhia, Que ansiosa esperava aquele instante, As cadeiras arrasta procurando Idônea posição para escutá-lo. Enche os copos Anselmo e se retira.
XXV Prontos à escuta, emudeceram todos* E o moço começou: "Mandais-me, ó tio, Que a lembrança renove do namoro Infeliz, e a ridícula aventura Em que fui grande parte. Ora vos conto O misterioso caso da assuada. Que essas estrelas curiosas viram, Certa noite de amores encobertos Em que um rival do amargo seu triunfo A pena teve, e causa foi da afronta Que hoje padece Vossa Senhoria.
........................................” Neste ponto o prelado, desejoso De disfarçar o natural vexame Que a narração mundana lhe fazia, Da profunda algibeira a caixa arranca Do tabaco, abre-a, tosse, esfrega os dedos, E uma grossa pitada apanha e funga. O perspicaz conselho o imita logo; Aventam-se as bocetas; os obséquios Trocam-se mutuamente os convidados; Qual de uma vez na larga venta insere O precioso pó; qual o divide Benévolo entre as duas; e co’os lenços Os reverendos... sacudidas, Deste modo prossegue o moço Vasco: