Portuguese poem
Cantiga do rosto branco
Rico era o rosto branco; armas trazia, E o licor que devora e as finas telas; Na gentil Tibehyma os olhos pousa, E amou a flor das bellas. «Quero-te!» disse á cortezã da aldeã; «Quando, juncto de ti, teus olhos miro, A vista se me turva, as fôrças perco, E quasi, e quasi expiro.»
E responde a morena requebrando Um olhar doce, de cobiça cheio: «Deixa em teus labios imprimir meu nome Aperta-me em teu seio!»
Uma cabana levantaram ambos, O rosto branco e a amada flor das bellas... Mas as riquezas foram-se co′o tempo, E as illusões com ellas.
Quando elle empobreceu, a amada moça Noutros labios pousou seus labios frios, E foi ouvir de coração extranho Alheios desvarios.
Desta infidelidade o rosto branco Triste nova colheu; mas elle amava, Inda infieis, aquelles labios doces, E tudo perdoava.
Perdoava-lhe tudo, e inda corria A mendigar o grão de porta em porta, Com que a moça nutrisse, em cujo peito Jazia a affeição morta.
E para si, para afogar a magua, Se um pouco havia do licor ardente, A dor que o devorava e renascia Matava lentamente.
Sempre trahido, mas amando sempre, Elle a razão perdeu; foje á cabana, E vae correr na solidão do bosque Uma carreira insana.
O famoso Sachem, ancião da tribu, Vendo aquella traição e aquella pena, Á ingrata filha duramente falia, E rispido a condemna.
Em vão! É duro o fructo da papaya, Que o labio do homem acha doce e puro Coração de mulher que já não ama Esse é inda mais duro.
Nu, qual sahíra do materno ventre, Olhos cavos, a barba emmaranhada, O misero tornou, e ao proprio tecto Veiu pedir pousada.
Volvido se cuidava á flor da infancia (Tão escuro trazia o pensamento!) «Mãe!» exclamava contemplando a moça, «Acolhe-me um momento!»
Vinha faminto. Tibehyma, entanto, Que ja de outro guerreiro os dons houvera, Sentiu asco daquelle que outro tempo As riquezas lhe dera.
Fôra o lançou; e elle expirou gemendo Sôbre folhas deitado junto á porta; Annos volveram; co′ os volvidos annos, Tibehyma era morta.
Quem alli passa, contemplando os restos Da cabana, que a herva toda esconde, Que ruinas são essas interroga E ninguem lhe responde.