Portuguese poem
Beijos
O que eu quizera ser, Para que eu fôsse ditoso, Fartasse o meu coração; Quizera passar no gozo A vida — como o sultão, E me faltasse o repouso No prazer de Salomão.
Do fino ouro de Ophir Em caçoilas d'ouro ardendo Ambar e mirrha odoriferos, Por todo Harem recendendo, E os alabastrinos jarros O rubro elixir vertendo.
De crystal nos lindos vasos Frescas rosas de Thibet, A papoula suporifera Curva na haste della ao pé; De lavrada prata em taça O saboroso caffé.
Eu no divan recostado Tendo as plantas no cocchim, A bella circassiana Curvada perto de mim, Co'as madeixas arrastando No tapete carmesim.
Dormir co'os labios casados A' face de terna Hauri, Acordar gozando os beijos, Que ba pouco tempo senti, E dormir ébrio de gozo, Como ba bem pouco dormi.
Perder no gozo os sentidos, Pensando a vida perder, Despertar p'ra novos gozos, Em gozo me converter; E julgar morrer de gozo Quando chegasse a morrer.