Versos Portuguese Machado de Assis Cleon, Myrto

Portuguese poem

Cleon, Myrto

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MYRTO.

Estás triste!

CLEON.

Oh! que não! Mas deslumbrado, sim, como se uma visão...

MYRTO.

A visão vai partir.

CLEON.

Mas muito tarde...

MYRTO.

Breve.

CLEON.

Quem te chama?

MYRTO.

O destino. E sabes quem me escreve?

CLEON.

Tua mãe.

MYRTO.

Já morreu.

CLEON.

Algum antigo amante?

MYRTO.

Lysicles.

CLEON.

Vive?

MYRTO.

Sim. Depois de andar errante N'uma taboa, á mercê das ondas, quiz o céu Que viesse encontral-o um barco do Pyreu. Pobre Lysicles! teve em tão cruenta lida A dôr da minha morte e a dôr da propria vida. Em vão interrogava o mar cioso e mudo. Perdêra, de uma vez, n'uma só noite, tudo, A ventura, a esperança, o amor, e perdeu mais: Naufragárão com ele os poucos cabedaes. Entrou em Samos pobre, inquieto, semi-morto, Um barqueiro, que a tempo atravessava o porto, Disse-lhe que eu vivia, e contou-lhe a aventura Da malfadada Myrto.

CLEON.

É isso, a sorte escura Voltou-se contra mim; não consente, não quer Que eu me farte de amor no amor de uma mulher. Vejo em cada paixão o fado que me opprime; O amar é já soffrer a pena do meu crime, Ixion foi mais audaz amando a deusa augusta; Transpôz o obscuro lago e soffre a pena justa, Mas eu não. Antes de ir ás regiões infernaes São as graças commigo Eumenides fataes!

MYRTO.

Caprichos de poeta! Amor não falta ás damas; Damas, tem-las aqui; inspira-lhe essas chammas.

CLEON.

Impõe-se leis ao mar? O coração é isto; Ama o que lhe convem; convem amar a Egistho Clytemnestra; convem a Cyntia Endymião; É caprichoso e livre o mar do coração; De outras sei que eu houvera em meus versos cantado; Não lhes quero... não posso.

MYRTO.

Ai, triste enamorado!

CLEON.

E tu zombas de mim!

MYRTO.

Eu zombar? Não; lamento A tua acerba dôr, o teu fatal tormento. Não conheço eu tambem esse cruel penar? Só dous remedios tens; esquecer, esperar. De quanto almeja e quer o amor nem tudo alcança; Contenta-se ao nascer co' as auras da esperança; Vive da propria mágoa; a propria dôr o alenta.

CLEON.

Mas, se a vida é tão curta, a agonia é tão lenta!

MYRTO.

Não sabes esperar? Então cumpre esquecer. Escolhe entre um e outro; é preciso escolher.

CLEON.

Esquecer? sabes tu, Myrto, se a alma esquece O prazer que a fulmina, e a dôr que a fortalece?

MYRTO.

Tens na ausencia e no tempo os velhos pais do olvido, O bem não alcançado é como o bem perdido, Pouco a pouco se esvai na mente e coração; Põe o mar entre nós... dissipa-se a illusão.

CLEON.

Impossivel!

MYRTO.

Então espera; algumas vezes A fortuna transforma em glorias os reveses.

CLEON.

Myrto, valem bem pouco as glorias já tardias.

MYRTO.

Um só dia de amor compensa estereis dias.

CLEON.

Compensará, mas quando? A mocidade em flôr Bem cedo morre, e é essa a que convem a amor. Vejo cair no occaso o sol da minha vida.

MYRTO.

Cabeça de poeta, exaltada e perdida! Pensas estar no occaso o sol que mal desponta?

CLEON.

A clepsydra do amor não conta as horas, conta As illusões; velhice é perdêl-as assim; Breve a noite abrirá seus véus por sobre mim.

MYRTO.

Não has de envelhecer; as illusões comtigo Flôres são que respeita Eolo brando e amigo. Guarda-as, talvez um dia, e não tarde, as colhamos.

CLEON.

Se eu a Lesbos não vou.

MYRTO.

Podem colher-se em Samos.

CLEON.

Voltas breve?

MYRTO.

Não sei.

CLEON.

Oh! sim, deves voltar!

MYRTO.

Tenho medo.

CLEON.

De quê?

MYRTO.

Tenho medo... do mar.

CLEON.

Teu sepulcro já foi; o medo é justo; fica. Lesbos é para ti mais formosa e mais rica. Mas a patria é o amor; o amor transmuda os ares. Muda-se o coração? Mudam-se os nossos lares. Da importuna memoria o teu passado exclue; Vida nova nos chama, outro céu nos influe. Fica; eu disfarçarei com rosas este exilio; A vida é um sonho máu: façamo-la um idylio. Cantarei a teus pés a nossa mocidade. A belleza que impõe, o amor que persuade, Venus que faz arder o fogo da paixão, Teu olhar, doce luz que vem do coração. Pericles não amou com tanto ardor a Aspasia, Nem esse que morreu entre as pompas da Asia, A Lais siciliana. Aqui as Horas bellas Tecerão para ti vivissimas capellas. Nem morrerás; teu nome em meus versos ha de ir, Vencendo o tempo e a morte, aos seculos porvir.

MYRTO.

Tanto me queres tu!

CLEON.

Imensamente. Anseio Por sentir, bella Myrto, arfar teu brando seio, Bater teu coração, tremer teu labio puro, Todo viver de ti.

MYRTO.

Confia no futuro.

CLEON.

Tão longe!

MYRTO.

Não, bem perto.

CLEON.

Ah! que dizes?