Portuguese poem
Clódia
Era Clódia a vergôntea ilustre e rara De uma família antiga. Tez morena, Como a casca do pêssego, deixava Transparecer o sangue e a juventude. Era a romana ardente e imperiosa Que os ecos fatigou de Roma inteira Coa narração das longas aventuras. Nunca mais gentil fronte o sol da Itália Amoroso beijou, nem mais gracioso Corpo envolveram túnicas de Tiro. Sombrios, como a morte, os olhos eram. A vermelha botina em si guardava Breve, divino pé. Úmida boca, Como a rosa que os zéfiros convida, Os beijos convidava. Era o modelo Da luxuosa Lâmia, - aquela moça Que o marido esqueceu, e amou sem pejo O músico Polião. De mais, fazia A ilustre Clódia trabalhados versos; A cabeça curvava pensativa Sobre as tabelas nuas; invocava Do clássico Parnaso as musas belas, E, se não mente linguaruda fama Davam-lhe inspiração vadias musas. O ideal da matrona austera e fria, Caseira e nada mais, esse acabava. Bem hajas tu, patrícia desligada De preconceitos vãos, tu que presides Ao festim dos rapazes, tu que estendes Sobre verdes coxins airosas formas, Enquanto o esposo, consultando os dados, Perde risonho válidos sestércios... E tu, viúva mísera, deixada Na flor dos anos, merencória e triste, Que seria de ti, se o gozo e o luxo Não te alegrassem a alma? Cedo esquece A memória de um óbito. E bem hajas, Discreto esposo, que morreste a tempo. Perdes, bem sei, dos teus rivais sem conta Os custosos presentes, as ceatas, Os jantares opíparos. Contudo, Não verás cheia a casa de crianças Loiras obras de artífices estranhos. Baias recebe a celebrada moça Entre festins e júbilos. Faltava Ao pomposo jardim das lácias flores Esta rosa de Paestum. Chega; é ela, É ela, a amável dona. O céu ostenta A larga face azul, que o sol no ocaso Coos frouxos raios desmaiado tinge. Terno e brando abre o mar o espúmeo seio; Moles respiram virações do golfo. Clódia chega. Tremei, moças amadas; Ovelhinhas dos plácidos idílios, Roma vos manda esta faminta loba. Prendei, prendei com vínculos de ferro, Os volúveis amantes, que os não veja Esta formosa Páris. Inventai-lhes Um filtro protetor, um filtro ardente, Que o fogo leve aos corações rendidos, E aos vossos pés eternamente os prenda; Clódia... Mas, quem pudera, a frio e a salvo, Um requebro afrontar daqueles olhos Ver-lhe o túrgido seio, as mãos, o talhe, O andar, a voz, ficar mármore frio Ante as súplices graças? Menor pasmo Fora, se ao gladiador, em pleno circo, A pantera africana os pés lambesse, Ou se, à cauda de indômito cavalo, Ovantes hostes arrastassem César.
Coroados de rosas os convivas Entram. Trajam com graça vestes novas Tafuis de Itália, finos e galhardos Patrícios da república expirante, E madamas faceiras. Vem entre eles Célio, a flor dos vadios, nobre moço, E opulento, o que é mais. Ambicioso Quer triunfar na clássica tribuna E honras aspira até do consulado, Mais custoso lavor não vestem damas, Nem aroma melhor do seio exalam. Tem na altivez do olhar sincero orgulho, E certo que o merece. Entre os rapazes Que à noite correm solitárias ruas, Ou nos jardins de Roma o luxo ostentam, Nenhum como ele, com mais ternas falas, Galanteou, vencendo, as raparigas.
Entra: pregam-se nele cobiçosos Olhos que amor venceu, que amor domina, Olhos fiéis ao férvido Catulo. O poeta estremece. Brando e frio, O marido de Clódia os olhos lança Ao mancebo, e um sorriso complacente A boca lhe abre. Imparcial na luta, Vença Catulo ou Célio, ou vençam ambos, Não se lhe opõe o dono: o aresto aceita.
Vistes já como as ondas tumultuosas, Uma após outra, vêm morrer à praia, E mal se rompe o espúmeo seio àquela, Já esta corre e expira? Tal no peito Da calorosa Lésbia nascem, morrem As volúveis paixões. Vestal do crime, Dos amores vigia a chama eterna, Não a deixa apagar; pronto lhe lança Óleo com que a alimente. Enrubescido De ternura e desejo o rosto volve Ao mancebo gentil. Baldado empenho! Indiferente aos mágicos encantos, Célio contempla a moça. Olhar mais frio, Ninguém deitou jamais a graças tantas. Ela insiste; ele foge-lhe. Vexada, A moça inclina lânguida a cabeça... Tu nada vês, desapegado esposo, Mas o amante vê tudo.
Clódia arranca Uma rosa da fronte, e as folhas deita Na taça que enche generoso vinho. "Célio, um brinde aos amores!", diz, e entrega-lha. O cortejado moço os olhos lança, Não à Clódia, que a taça lhe oferece Mas a outra não menos afamada, Dama de igual prosápia e iguais campanhas, E taça igual lhe aceita. Afronta é esta Que à moça faz subir o sangue às faces, Aquele sangue antigo, e raro, e ilustre, Que atravessou puríssimo e sem mescla A corrente dos tempos... Uma Clódia! Tamanha injúria! Ai, não! mais que a vaidade, Mais que o orgulho de raça, o que te pesa, O que te faz doer, viciosa dama, É ver que um rival merece o zelo Deste pimpão de amores e aventuras. Pega na taça o néscio esposo e bebe, Com o vinho, a vergonha. Sombra triste, Sombra de ocultas e profundas mágoas, Tolda a fronte ao poeta.
Os mais, alegres, Vão ruminando a saborosa ceia; Circula o dito equívoco e chistoso, Comentam-se os decretos do senado, O molho mais da moda, os versos últimos De Catulo, os leões mandados de África E as vitórias de César. O epigrama Rasga a pele ao caudilho triunfante; Chama-lhe este: "O larápio endividado", Aquele: "Vênus calva", outro: "O bitínio..." Oposição de ceias e jantares, Que a marcha não impede ao crime e à glória.
Sem liteira, nem líbicos escravos, Clódia vai consultar armênio arúspice. Quer saber se há de Célio amá-la um dia Ou desprezá-la sempre. O armênio estava Meditabundo, à luz escassa e incerta De uma candeia etrusca; aos ombros dele Decrépita coruja os olhos abre. "Velho, aqui tens dinheiro (a moça fala), Se à tua inspiração é dado agora Adivinhar as cousas do futuro, Conta-me..." O resto expõe. Ergue-se o velho Súbito. Os olhos lança cobiçosos À fulgente moeda. "Saber queres Se te há de amar esse mancebo esquivo?" "Sim". Cochilava a um canto descuidada A avezinha de Vênus, branca pomba. Lança mão dela o arúspice, e de um golpe Das entranhas lhe arranca o sangue e a vida, Olhos fitos no velho a moça aguarda A sentença da sorte; empalidece Ou ri, conforme do ancião no rosto Ocultas impressões vem debuxar-se. "Bem haja Vênus! A vitória é tua! O coração da vítima palpita Inda que morto já..."
Não eram ditas. Estas palavras, entra um vulto... É ele? És tu, cioso amante!
A voz lhes falta Aos dous (contemplam-se ambos, interrogam-se); Rompe afinal o lúgubre silêncio...
Quando o vate acabou, tinha nos braços A namorada moça. Lacrimosa, Tudo confessa. Tudo lhe perdoa O desvairado amante. "Nuvem leve Isto foi; deixa lá memórias tristes, Erros que te perdôo; amemos, Lésbia; A vida é nossa; é nossa a juventude". "Oh! tu és bom!" "Não sei; amo e mais nada. Foge o mal donde amor plantou seus lares. Amar é ser do céu". Súplices olhos Que a dor umedecera e que umedecem Lágrimas de ternura, os olhos buscam Do poeta; um sorriso lhes responde, E um beijo sela esta aliança nova.
Quem jamais construiu sólida torre Sobre a areia volúvel? Poucos dias Decorreram; viçosas esperanças Súbito renascidas, folha a folha, Alastraram a terra. Ingrata e fria, Lésbia esqueceu Catulo. Outro lhe pede Prêmio à recente, abrasadora chama; Faz-se agora importuno o que era esquivo. Vitória é dela; o arúspice acertara.