Versos Portuguese Manuel Botelho de Oliveira Anarda sangrada

Portuguese poem

Anarda sangrada

by (1636–1711)

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É bem que desate Anarda De tanto sangue os embargos; Sendo o sangue rio alegre, Sendo Anarda Abril galhardo.

Ensina no braço, e sangue Com branco, e purpúreo ensaio, A ser neve à mesma neve, A ser cravo ao mesmo cravo.

Se bem num, e noutro efeito, Faz Amor milagre raro; Pois a neves une rosas, Pois Dezembros une a Maios.

Se Anarda é vida de todos, E o sangue à vida comparo: Tantas vidas vai perdendo, Quantos corais vai brotando.

Pára um pouco, e como teme De haver dado morte a tantos, Ficava presa à corrente, Ficava sem sangue o braço.

E não mata a sangue frio, Se com sangue está matando; Pois aviva mil ardores, Pois abrasa mil cuidados.

A sangue, e fogo publica Guerra a meu peito abrasado; A sangue em corais vertidos, A fogo em olhos tiranos.

Corre o sangue, porque dizem Que está corrido, admirando Do rosto o carmim confuso, Da boca o nácar rasgado.