Portuguese poem
Vozes do coração
by Maria Adelaide Fernandes Prata (1826–1881)
Eu tive um filho só, nasceu formoso, Era as minhas delicias, meu thesouro, Ufana eu o estreitava entre meus braços, Com orgulho ás amigas o mostrava, Não o trocava a um reino, ao mundo inteiro! Da terra nada mais ambicionava! Apenas tinha um anno e o doce nome De mãe balbuciar, ébria de goso Então lhe ouvi, ficando indemnisada Das fadigas que à mãe um filho custa E qual lindo botão desabrochando, Cada vez mais gentil o vi crescendo, Divisando-lhe fino entendimento; Mas ah! Mãe desditosa que tormentos A sorte mais cruel te preparava!... Que nuvem carregada a tua estrella Veio eclipsar! N'um pélago de trevas P'ra sempre tuas ditas sepultando!... Que terrivel martyrio o cruel fádo Nas horridas cavernas te ideava... Um dia era de Julho, fatal dia! E mal que despontava a aurora alegre, Levantei-me deixando o tenro infante Que junto a mim dormia, repousando E no mister caseiro alguns instantes Eu empreguei aos servos dando as ordens E após, junto ao leito de meu filho Cuidadosa volvi p'ra meus carinhos Prestar-lhe ao despertar, vel-o sorrir-me; Porém, qual foi meu 'spanto, o meu martyrio Ao ver-lhe enfermidade estranha, horrivel! E todo em contraçoes o debil corpo, Já perdendo os sentidos, semi-morto! Dos olhos vi sumir-se-lhe a retina E a formosa boquinha a um lado posta! Ora tomava a côr d'um moribundo Outras vezes da rosa purpurina; Da fronte lhe manavam vastas gottas D'abundante suor frio, nocivo Horas nove lhe dura o ataque infausto, Sem que da medicina os vas recursos Lhe podessem conter os soffrimentos! E d'angustias cercada, eu delirante, Loucas phrases soltei que o ceu irado Por ellas me puniu; pois que prostrada, Do filho meu a vida lhe pedia, Que m'o restituisse mesmo a custo De tormentos infindos, dôr. martyrios, De noutes mal dormidas, de fadigas Incessantes, com tanto elle vivesse; E Deus que mais um anjo ambicionava A vida lhe deixou p'ra meu castigo!... Porque aos decretos seus, oasei oppôr-me! Elle vive; ai de mim! Mas em que estado! Jamais deixou o miserando infante De ser por tal molestia perseguido, Enfermidade horrivel, incuravel, Ataques produzindo, uns, após outros Que s'augmentou quando um lustro contava. Do lado esquerdo, leso, eis elle fica E pouco a pouco o tino foi perdendo E de todo a memoria, logo a falla! P'ra sempre emmudeceu! e o som suave Da sua voz jamais ouvir-lhe pude! Então da infeliz mãe perdendo a idéa, Não mais a conheceu! Nem lhe sorriran Seus labios nunca mais!.. E em vez d'afagos Reppelle a mal fadada e a martyrisa!.. Diversas são agora as preces minhas, Que me não sobreviva, a Deus só rogo; g Porém, Deus nãome attende!..e eu soffro..soffro!.. E junto d'elle vou passando triste, De meus annos a flor vejo murchar-se, Sem ventura extinguir-se o sol da vida!..