Versos Portuguese Maria de Lara e Meneses Oitavas

Portuguese poem

Oitavas

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Que fes de despedida quando de Villa-Viçosa veyo para hum Mosteyro de Lisboa, nas quaes descreveo o triste estado, e o que poderia vir, segundo as pennas, que à acompanhava.

I.

Ficay esteriles campos, calvos montes, Incultas serras, tristes arvoredos, Ribeiras seccas, peçonhentas fontes, Medonhos valles, asperos rochedos; Ficai mal assombrados orizontes, Parados rios, desiguaes penedos, Que jà me naõ vereis como me vistes, Inda que o ser mudeis de serdes tristes.

II.

Meus sentidos trouxestes jà fechados, Que agora sem vos ver já trago abertos, De ouro, e de azul vestistes meus cuidados, Mas agora os vereis de dò cubertos; Se os vistes andar sempre acompanhados, Metidos os vereis pelos desertos, Porque naõ vendo, vejaõ o que naõ viaõ E sentindo, naõ sintaõ o que sentiaõ.

III.

Sempre senti pezar, nunca alegria, Nunca em vòs descançei, sempre cançava, O bem que achava em vòs, de mim fugia, Mas se me achava o mal, em mim parava: A treição me dava, e me feria Se delle por diante me escuzava, Notai deste meu mal este segredo, Que sendo matador, he falso, e tredo.

IV.

Em vós todos os bens vi contrafeitos, Cujas internas formas eraõ dores, Em vós topey pastores lobos feitos, Porém ainda em trajos de pastores; A estes procureis, e vãos respeitos, Dos bens alheyos vi destruidores, Gostando só do mal que entaõ causavaõ, E roubando os taes bens, que naõ gostavaõ.

V.

Mais feroces, que lobos, pois que querem Sustentar-se dos males, que causarem: Que os lobos mataõ gado por comerem, Mas estes só matavaõ por matarem; Sómente se recream em offenderem, Os que mais suas leys contrariarem, Porque a contradicçaõ faz inimigos Daquelles, que antes della foraõ amigos.

VI.

Nenhum seu proprio estado já respeita E trazem nas aldeas em que moraõ Rebuços de virtude contrafeita, E rostos naturaes do mal que adoraõ: Condẽnam a ley do Ceo por muito estreita, E em todas por seu mal sempre peòram, Taõ amigos do bem, que vivo o enterram, E taõ destros no mal, que nunca o erraõ.

VII.

De Astioge se diz que aborrecia A Cyro moço tenro, e delicado, A quem morte cruel traçava, e ordia; Porque era pretensor do seu Reynado; Porém o odio destes naõ se cria, Por enveja, ou temor demasiado, Sò com odio do bem, o bem perseguem, Por seguirem o mal, que todos seguem.

VIII.

Mas eu que escrevo, canto, falo, ou digo, Quem me importuna, turba, e desordena, Se a cegueira que tem he seu castigo, E sua mà vontade he sua pena; Quem tem o mundo, que naõ tenha amigo, Se Deos assim o traça, assim ordena Que tudo quanto ha, tenha adversario, E seja o homem de si cruel contrario.

IX.

Saõ estes desliaes adoradores Da propria vontade cega, e dura, Que fazem de seus vicios seus senhores, E só para seu mal mostraõ brandura, Das sempiternas leys contraditores, Trazendo destas leys a vestidura, Amadores do mal, e da mentira, Filhos da perdiçaõ, e vasos de ira.

X.

Vestem a perversaõ com sua nobreza, Querem fazer da noite claro dia, Sua maldade cobrem, com a riqueza, Rebução com poder a tyrannia: Disfarçaõ sua furia em fortaleza, A vontade cruel julgaõ por pia, Sò tem o mal por bem, que o naõ aborrecẽ, E o bem temno por mal, que o naõ conhecẽ.

XI.

Por peccados que Lucio, e Casso acharaõ A seus filhos mataraõ por peccarem, Mas estes mais crueis que os que passaraõ Querem-lhos inventar para os matarem; Os bens dignos de premio nunca olharaõ, Sò vem os males para os castigarem, E o que he furia cruel digna de espanto, Chamaõ-lhe sò rigor, e zelo Santo.

XII.

Falo com reprovados, que abterno Foraõ por culpa sua condemnados, Ao fogo abrazador do escuro inferno, Sepulchro dos que jà saõ reprovados; Juizo foy divino, e sempiterno, Que os juizos humanos traz cançados, Que vivaõ de mistura os escolhidos, Com os que se haõ de perder, e já perdidos.

XIII.

Mas ay que póde ser q̃ os que reprehendo Subaõ do mal ao bem que naõ conhecem, E póde vir a ser que os que defendo Deçaõ do bem ao mal, que hoje aborrecem, Que quaes saõ os de Deos, eu naõ no entẽdo Senaõ segundo as obras que aparecem: Porèm a graça de huns naõ he segura, E nem a culpa de outros sempre dura.

XIV.

O Principe das trevas naõ pretende Com todos seus vassalos preseguirnos? Naõ nos deseja mal, naõ nos offende? E naõ estuda sempre em destruirnos? Naõ temos nòs a Deos que nos defende, Se elle quer offendernos, e oprimirnos? Se nòs sem paixam nossa o desprezamos, Porque com seus ministros nos cançamos?

XV.

Que ter amigos taes he sorte boa, Pois saõ occasiões para a vitoria, Artifices sutis da altiva coroa, Que Deos costuma dar na eterna gloria; Naõ quero que me cause, ou que me doa, Trazelos como trago na memoria, Porque, ou sejaõ cilicio, ou disciplina, Saõ meyos de mayor graça divina.

XVI.

Quem nunca aborreceo o ferro agudo Com que o barbeyro destro dà a sangria, Se para o mal que vem serve de escudo, Lançando à força o mal que havia: Quem trata mal o instrumento tudo, Que dente lhe arrancou, que lhe dohia? Amem-se pois amigos que daõ pena, Pois Deos meyos os faz do bem que ordena.

XVII.

Chorẽse os dãnos seus que naõ conhecem, Pois que primeiro a si se offendem, e mataõ, Com os males com que os justos enriquecẽ, Que exercitaõ no bem quando maltrataõ, A si oprimem, damnaõ, a si empobrecem, A si destruem, cansaõ, e disbarataõ, A quem dos bens alheyos qualquer copia, Serve de afronta, penna, e magoa propria.

XVIII.

O profeta David Deos defendia, Do Rey perverso injusto que o buscava, Saul por huma parte o perseguia, E Deos por outra parte o sublimava, Levanta-o Deos por Rey, porque o sofria, Destroe Deos o Rey que o invejava, Quem sofre reyna, quem perdoa alcança, He o odio do mào a espada, e a lança.

XIX.

Assim que està por ley jà definido, A qual se tem no mundo publicado, Que em bẽ redunda o mal quãdo he sofrido, E empena fica o bem quando he passado; Hum passando deixou triste o sentido, Outro durando o traz desenganado; Porque hey de gastar bem que tanto damna, E temer mal que tanto desengana.

XX.

Assim Deos o permitte, assim o ordena, Que nesta vida triste, e transitoria, Com gloria vaã se ganhe eterna pena, Com pena temporal eterna gloria: O gosto sempre a alma dezordena, A penna faz a vida meritoria, Quando se gosta o bem entaõ escurece, Quando o trabalho cansa, entaõ enriquece.

SONETO.

Horas breves de meu contentamento, Nunca me pareceo quando vos tinha Que vos visse mudadas taõ azinha, Em taõ compridos annos de tormento. As minhas torres que fundei no vento, O vento mas levou que mas sustinha, Do mal que me ficou a culpa he minha, Pois sobre cousas vãas fiz fundamẽto. Amor com falsas mostras aparece, Tudo possivel faz, tudo assegura, Mas logo no melhor desaparece, Ó grande mal, estranha desventura, Por hum breve prazer que desfalece, Aventurar hum bem que sempre dura.