Versos Portuguese Maria de Lara e Meneses Oitavas Consolatorias

Portuguese poem

Oitavas Consolatorias

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Sobre o mesmo pezar.

I.

Ainda que a dor da razão priva, Quãdo a causa della he muito amada, Ainda que a paixaõ prende, e cativa, Os discursos de huma alma atormentada. A fé que sobre a mente he bem que viva, Pois anda sobre os Ceos alevantada, Dos males que sentis, e dos que vedes, Vos consola com os bens, que por fé crédes.

II.

O Deos, centro das almas, guia, e norte, Por quem cada qual dellas he regidas, Fez que esta nossa vida fosse morte, Depois que sua morte fez a vida: Assim quem vive mais tem peor sorte, Pois que padece morte mais comprida, Porq̃ naõ logra mais quem tem mais annos, Mas quem mais annos tẽ, sofre mais dãnos.

III.

Aquelle puro espirito encastoado; No delicado corpo que vos vieis, Sò consentia ser de vòs amado, Porque o divino amor lhe consentieis; E pois que Deos aos Ceos o tinha dado, E vòs só do emprestado possueis, Porque haveis de chorar de ver que Deos, Da terra quer levar o que he dos Ceos?

IV.

Tanto o amador melhor padece, O trabalho por mais duro que seja, Quanto delle o pezar mais enriquece, A cousa que mais ama, e mais deseja. Pois se Deos que nos Ceos, quiz que estivesse, Naõ quer que a terra indigna mais a veja, Possa mais o seu bem para alegrar-vos, Do que pòde esse mal para cançar-vos.

V.

He tençaõ do amor à razaõ dada, Que os bens que busca ainda em seu perigo, Mais saõ para os dar à cousa amada, Que naõ para logralos sò comsigo: Pois se estes a que esta alma foy chamada, Sem vòs lhos quiz dar Deos, se sois amigo, Folgay de carecer da parte vossa, Porque ella a parte, e o todo lograr possa.

VI.

Quem vive no terrestre Purgatorio, Vive para ir gozar de hum bem eterno, E em quanto tinheis nella o transitorio; Em tanto naõ tinha ella o sempiterno, Pois se he ponto de fé, claro, e notorio, Que acaba o bem antigo, e o bem moderno, Se lhe querieis bem, num bem está posta, No qual todos os bens possue, e gosta.

VII.

Mas vòs a quem a dor custa mais caro, Direis do damno della atormentado, Que naõ chorais da esposa o rico amparo Mas que chorais a vòs desamparado. Porèm sabendo Deos que era muy raro, Poder viver sem amar, e ser amado, Amar sua belleza vos convida, E quer que vendo a morte, ameis a vida.

VIII.

Porque este autor de toda a formosura, Movido da feição, não de rigor, Vos tira dante os olhos a pintura, Porque ponhais os olhos no pintor; O casto amor que tinheis foy figura, Do real, verdadeiro, e puro amor, Que se Deos vos tirou cousa tào bella, Foy por vos dar a si que o he mais que ella.

IX.

As cousas que da terra vaõ passando, Que nòs andamos nella pretendendo, Naõ saõ para os lograr nellas parando, Mas para Deos por ellas irmos vendo; Assim esta que vos hieis amando, Sabey, que ordenou Deos, segundo entendo, Que no humano amor vos enssayasseis, Porque o divino amor representasseis.