Portuguese poem
Soneto Xix.[4]
Hum vulto cuja fórma desconsola Pelo muito que mostra o pouco sizo, E que pela pobreza do juizo Mil trastes exquisitos desenrola:
Chapeo que bem carrega hum mariola, E que ainda aos sizudos causa rizo, Cazaquinha cortada de improvizo, Fivela que lhe vem de sola a sola:
Espantalho que em praça nunca falta Sem ter occupação nem má, nem boa, Que apenas moça vê logo lhe salta:
Eis-aqui, sem medir qualquer pessoa, Breve quadro de hum misero Peralta, Que affecta de Maltez cá em Lisboa.
Aos Annos do Serenissimo Principe Nosso Senhor.
SONETO XX.
Foi este, Alto Senhor, o santo dia, O Ceo o concedeo, o Ceo que he justo Afflicto o Povo, posto em dôr, e em susto Com lagrimas ardentes lho pedia.
O fertil Ganges nas entranhas cria Offertas para Vós, Principe Augusto, E ajoelhado na praia o Povo adusto Rico thesouro a vossos pés envia.
Ao Reino tecereis dias dourados, Sem precizar que os Fastos Lusitanos Vos contem as acções dos Reis passados.
Ponde os olhos nos vivos Soberanos, Estudai-lhe as doutrinas, e os cuidados, E a patria acclamará os vossos Annos.
A hum Leigo Arrabido vesgo, despedido da Meza do S. C. P. Silva, por tomar a melhor pera da Meza. He o de que se trata nas Decimas, Tom. II. pag. 178, Ferio sacrilega espada.
SONETO XXI.
O vesgo monstro que co'a gente ralha E de manhãa a todos atravessa, A cuja hirsuta sordida cabeça Nunca chegou juizo, nem navalha;
Que os gazeos olhos pela meza espalha Por ver se ha mais comer que tire, ou peça, Entrando nelle com tal fome, e pressa Qual faminto frizão em branda palha;
Por crimes de alta gula, e pouco sizo, De meza bem servida, mas severa, Foi n'hum dia lançado de improviso.
Hoje chorando o seu perdão espera: Perdêrão dous glotões o Paraiso, O antigo por maçãa, este por pera.
Aos toucados altos.