Versos Portuguese Nicolau Tolentino Soneto Xix.[4]

Portuguese poem

Soneto Xix.[4]

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Hum vulto cuja fórma desconsola Pelo muito que mostra o pouco sizo, E que pela pobreza do juizo Mil trastes exquisitos desenrola:

Chapeo que bem carrega hum mariola, E que ainda aos sizudos causa rizo, Cazaqui­nha cortada de improvizo, Fivela que lhe vem de sola a sola:

Espantalho que em praça nunca falta Sem ter occupação nem má, nem boa, Que apenas moça vê logo lhe salta:

Eis-aqui, sem medir qualquer pessoa, Breve quadro de hum mi­sero Peralta, Que affecta de Maltez cá em Lisboa.

Aos Annos do Serenissimo Principe Nosso Senhor.

SONETO XX.

Foi este, Alto Senhor, o santo dia, O Ceo o concedeo, o Ceo que he justo Afflicto o Povo, posto em dôr, e em susto Com lagrimas ardentes lho pedia.

O fertil Ganges nas entranhas cria Offertas para Vós, Principe Augusto, E ajoelhado na praia o Povo adusto Rico thesouro a vossos pés envia.

Ao Reino tecereis dias dourados, Sem precizar que os Fastos Lusitanos Vos contem as acções dos Reis passados.

Ponde os olhos nos vivos Soberanos, Estudai-lhe as doutrinas, e os cuidados, E a patria acclamará os vossos Annos.

A hum Leigo Arrabido vesgo, despedido da Meza do S. C. P. Silva, por tomar a melhor pera da Meza. He o de que se trata nas Decimas, Tom. II. pag. 178, Ferio sacrilega espada.

SONETO XXI.

O vesgo monstro que co'a gente ralha E de manhãa a todos atravessa, A cuja hirsuta sordida cabeça Nunca chegou juizo, nem navalha;

Que os gazeos olhos pela meza espalha Por ver se ha mais comer que tire, ou peça, Entrando nelle com tal fome, e pressa Qual faminto frizão em branda palha;

Por crimes de alta gula, e pouco sizo, De meza bem servida, mas severa, Foi n'hum dia lançado de improviso.

Hoje chorando o seu perdão espera: Perdêrão dous glotões o Paraiso, O antigo por maçãa, este por pera.

Aos toucados altos.