Portuguese poem
Soneto Xxii.[5]
Foi ao Manique hum homem accusado Por contrabandos ter; elle sciente Chama a quadrilha, corre diligente, Entra, busca, e não acha o Malsinado.
Acha a mulher, que tinha por toucado A torre de Belem: ella que o sente, Banhada em pranto, desmaiada a frente, Prostra por terra o corpo delicado.
C'o boléo se esbandalha a mata espessa, Sahem della esguiões, cassas lavradas, E de belbute trinta e huma peça,
Fivelas, espadins, rendas bordadas: Até tinha escondido na cabeça O marido, e tres arcas encouradas.
Mettendo a ridiculo humas contradanças.
SONETO XXIII.
N'huma tremula sala mal armada Com placas velhas, e papel pintado; Clamava já o povo alvoroçado Que fosse a Favorita começada.
Guincha em venal rabeca desgrudada De velho musico o arco estuporado: Cadeia, grita hum muito suado, Olhem que vai a contradança errada.
Nervoso chispo, saborosas frutas He fazenda que alli nunca governa: Aquellas bocas andão sempre enxutas.
Nunca mais alli tórno a fazer perna: Quanto mais val o ir com quatro trutas Fazer huma função n'huma taberna.
Por occasião de estranharem ao Author hum sonho que a ninguem offendia.
SONETO XXIV.
Atiça, ó moço, a moribunda chama Dessa faminta, sordida candêa, E encostado á parede cabecêa, Posta de guarda ao pé da minha cama.
Se o sono, que em meus olhos se derrama, E os languidos sentidos me encadêa, Tentar com sonhos esta pobre idéa, Em altos gritos por meu nome chama:
Assenta-me na cara essas mãos frias: Pois ves o fructo, que sonhando tiro, Corta em raiz traidores fantasias.
Contra os sonhos desde hoje me conspiro: Se ao primeiro me dizem heresias, Em sonhando outros pregão-me hum tiro!
Á moda dos chapeos maiores da marca.
SONETO XXV.
Amigos, e Senhor meu, de França, ou Malta Hum chapeo mande vir a toda a pressa; A cópa que me ajuste na cabeça; Mas as abas na fórma a mais peralta.
A detraz que me fique muito alta, A prezilha, e botão pequena peça: Estimarei que disto não se esqueça; Que a demora me faz bastante falta.
Gostei muito do invento, he bem traçado, Porque vi no Loreto hum certo dia Muito povo a correr para o Chiado,
Para ver hum Senhor, quem tal diria: C'hum chapeo de tal fórma desmarcado Que nem a gente a pé passar podia.
Ás fivelas chamadas a la Chartre.
SONETO XXVI.
Oh quantos Mexicanos patacões, Mareados talheres já sem par, Á tonta Avó o neto vai furtar De mofentos decrepitos caixões:
Fundidos em quadrados fivelões Para á Chartres o neto passear, Traz nos pés a baixela singular Que podia servir em correões.
Capitão Vento-Sul, rico Hollandez, Que de prata subtil pequenos Ós Servem só de fivelas nos teus pés,
Vem admirar-te, vendo que entre nós Traz o pobre peralta Portuguez Por fivelas molduras de tremós.
A huma Velha presumida.
SONETO XXVII.
Debalde sobre a face encarquilhada Pendendo louros bugres emprestados, Dás inda ao louco amor teus vãos cuidados, Em carmins enganosos confiada.
Postiça formosura, em vão comprada, Não torna atraz os annos apressados: Nem alvos dentes de marfim talhados, Tornão em nova a tremula queixada.
De ti no mesmo tempo que do Gama Cantou mil bens a Deosa Trombeteira, A que os baixos Poetas chamão Fama:
Porém sempre ficaste em boa esteira; Porque, se já não prestas para dama, Inda serves mui bem como terceira.
Aos Annos de huma formosa Dama.
SONETO XXVIII.
Deixai, Pastores, na montanha os gados, Vinde ao sitio melhor desta campina Beijar a mão á bella, e peregrina Deidade tutelar dos nossos prados:
Vinde offertar-lhe aos annos celebrados O cravo, a roza, a angelica, a bonina; E ao mais suave som da flauta fina Decantar seus illustres predicados.
Mas já a cercão pastores, e pastoras; Huma lhe beija a mão, outra o vestido; Elles a coroão de vistosas flores,
E em doces vozes todo o rancho unido Canta que ella he a Deosa dos Amores; Pois tem no rosto as settas de Cupido.
A Sua Alteza.
SONETO XXIX.
Nesta cansada triste poesia Vedes, Senhor, hum novo pertendente, Que aborrece o que estima toda a gente, Que he ter no mundo cargos, e valia.
Sobre alto throno ha annos que regia De docil povo turba obediente: Mas quer antes sentar-se humildemente N'hum banco da Real Secretaria;
Qual modesto Capucho reverendo, Que em fim de Guardiania triennal Passa a Porteiro as chaves recebendo.
Em mim conheço vocação igual: E co'a mesma humildade hoje pertendo Passar de Mestre a ser Official.
A hum Padre Guardião.
SONETO XXX.
Meu Padre Guardião, que exemplarmente Regeis essa Capucha Sociedade, Que munida do véo da Santidade Passa como não passa a mais da gente:
Vós que á força de braço omnipotente Fazeis tremer do inferno a potestade, E aos exorcismos só de hum vosso Frade Se explica o Demo em Portuguez corrente:
Logo que dessa estola o forte escudo Buscar esbelta Nynfa, que atacada Seja d'algum Demonio surdo, ou mudo,
Mandai dos Márques conte a trapalhada: Pois só elle, que foi o que urdio tudo, Sabe quem commetteo a velhacada.
Em louvor de Caporalini, Actor do Theatro de S. Carlos.
SONETO XXXI.
No grão Theatro vejo sempre enchentes: As cans annosas, os cabellos louros, Illustradas nações, barbaros Mouros, Todos da tua voz ficão pendentes.
Que importa que não deixem descendentes Teus ex-virís deshabitados couros; Que importa que tu roubes aos vindouros Se enriqueces, se encantas os presentes?
Não he traição ao sexo feminino; He só razão quem te elogia, e preza, Comico Mestre, Musico divino.
Oh nação de harmonia, e de crueza! O teu ferro nem sempre he assassino: Não insultou, honrou a natureza.
Achando-se o Author prezo dos bellos olhos de Marcia.
SONETO XXXII.
Eu vi a Marcia bella, vi Cupido Com arco, settas, e cruel aljava, Com impeto sahir de donde estava, E voar para mim enfurecido.
Fugí; bradei: porém não fui ouvido; E o tyranno Rapaz que me buscava, Com huma, e outra setta me atirava, Até de todo me deixar rendido.
Atou-me as mãos com asperas cadeias, Sem o mover o sangue que corria Do roto coração, das rotas veias.
Antes, com frio rizo me dizia: «E não sabias tu, que Amor receias, Que nos olhos de Marcia Amor vivia?»
Sobre a Ingratidão de huma Dama.
SONETO XXXIII.
Coração, de que gemes, de que choras? Que parece tens odio á propria vida! Se perdeste teu bem, foi mão perdida, Com te pôr a morrer nada melhoras.
Eu bem sei que a belleza a quem adoras, Foi-te ingrata, e cruel, foi fementida; Mas que esperavas tu, se he lei sabida O mudar-se a Mulher todas as horas.
Socega, Coração, deixa a tristeza; Quem te mandou querer com fé tão pura, Quem te mandou mostrar tanta firmeza!
Erraste, tem paciencia, em fim procura Não fazer por Mulher jámais fineza, Acharás mais amor, maior ventura.