Versos Portuguese Nicolau Tolentino Ode

Portuguese poem

Ode

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Offerecida a SS. MAGESTADES, no dia da Acclamação da Rainha N. Senhora.

A vida escura em que a natureza, e a fortuna me lançárão tão longe dos Reaes pés de VV. MAGESTADES; o medo justo de mandar huma voz fraca, e desconhecida aos ouvidos de Reis, prenderião hoje a minha lingoa temerosa, se o amor da Patria, e o gosto de a ver feliz, dando-me novo espirito, me não puzessem na boca esta lingoagem, de huma alma singela, estes versos sem arte dictados pelo amor respeitoso, e que em lugar de enganosa, e enfeitada poesia, descobrem unicamente os sentimentos de hum coração fiel, onde VV. MAGESTADES reinão Soberanamente.

Neste Throno, a que poucos Monarcas sobem, tem a Nação Portugueza collocado a VV. MAGESTADES por aquelle talento de agradar, dom do Ceo, precioso, e raro na Sagrada Pessoa dos Reis, que querem (como VV. MAGESTADES conseguírão) ser acclamados pela alegria publica, e pela torrente de lagrimas, com que hum povo inteiro, transportado de gosto, levantava ás estrellas os Augustos Nomes de seus novos Reis. Eu vi, Senhores, este grande espectaculo; foi huma scena de ternura, que arrancaria lagrimas ainda a hum coração que não fosse Portuguez. Vi soldados velhos, que endurecidos ao frio, e á calma, queimados com o fogo da polvora, annunciavão hum coração de ferro, banharem pela primeira vez de lagrimas ternissimas aquelles honrados rostos, aquellas cerradas feridas, que recebêrão pela Patria, e que tornarião a abrir com gosto, se o felicissimo Reinado de VV. MAGESTADES não estivesse destinado á paz, e á felicidade dos seus povos; era preciso ser insensivel para que no meio de hum povo entregue á doce, e tumultuosa desordem, que cansa a alegria excessiva, se conservasse a minha alma na sua situação ordinaria; prendeo nella huma faisca do fogo sublime, que eu vi atear nos corações Portuguezes: a alta idéa das Virtudes de VV. MAGESTADES, a multidão de beneficios com que vemos dourados os dias do seu faustissimo Reinado, huma longa serie de felicidades aberta no futuro diante dos meus olhos, me levarião a través do povo, e das armas ao Throno dos Reis, onde á face do Ceo, e dos homens me desentranhasse em gritos de alegria, e mostrasse nesta especie de delirio, que o coração de VV. MAGESTADES não trabalha para ingratos; mas o profundo, e sagrado respeito, que pôde suffocar em mim este impeto de ternura, não pôde fazer callar-me; levado da invencivel força do amor, e do reconhecimento, me atrevo a pôr na Real presença de VV. MAGESTADES grandes cousas em máos versos; ponho a simples verdade, ponho os votos da Nação, e algumas das muitas acções de piedade com que VV. MAGESTADES tem mandado contentes os que levão por valia a razão, ou as desgraças. Se VV. MAGESTADES do alto do Throno se dignarem lançar os olhos sobre estes humildes versos, reconheceráõ nelles não o Estro que faz Poetas, mas o que faz vassallos amantes de seus Soberanos. Estro sublime, e que deve tocar mais no coração dos Monarcas, do que o das Odes famosas de Pindaro, e de Horacio, cheias da mais bella poesia; mas filhas da arte, e da lisonja, e onde não fuzila aquella luz de verdade, que dará logo nos Reaes olhos de VV. MAGESTADES, se eu tiver a incomparavel honra de que este papel seja apresentado diante do Augusto, e Respeitavel Throno dos Pais da Patria, dos Amigos, dos Bemfeitores, dos Reis adorados da felicissima, e sempre fiel Nação Portugueza.

ODE.

Das virtudes guiados Subí ao alto Throno, oh Reis Augustos; Nem sempre esquivos fados Se nos hão de mostrar surdos, e injustos: Abrem vasto thesouro, E nos mandão por Vós a Idade de Ouro.

Do Rei aos Ceos erguido O Reino, e o coração tendes herdado, Benigno, enternecido, De mil virtudes solidas dotado; Por genio piedoso, E digno em fim de tempo mais ditoso.

Da Eterna Providencia Os beneficos raios fuzilárão; Já se estima a innocencia, Já os tempos de Ferro se abrandárão, Já vem o ar talhando A Piedade, e a Justiça os braços dando.

Com subita alegria Tornai a ver os conhecidos lares, Tornai a ver o dia, Vós que habitastes horridos lugares, Lugares deshumanos Onde passastes dez, e outros dez annos.

Do chão desentranhados Vinde jurar os novos Reis felizes: Nos pulsos descarnados Mostrai ao Povo as roxas cicatrizes, E os grilhões inda quentes Na praça triunfal deixai pendentes.

Que lagrimas levaste, Patrio Téjo, na tua escura veia Quando turvo passaste! E as ondas, que quebravas sobre a areia, Que cinzas que regárão! Que triste sangue para o mar levárão!

Mas torna, oh manso Téjo, Torna a volver corrente prateada: Já taes males não vejo: E até já foge a nuvem carregada, Que á triste Lusa terra Promettia fatal, e pronta guerra.

De pelouro violento Não vê cahir o exangue companheiro; E dorme ao som do vento Em campo aberto o molle pegureiro; O lavrador cantando Em paz herdados campos vai cortando.

Da sorte das batalhas Livrai, Piedosos Reis, os Portuguezes; Pendurem duras malhas, E os temperados lucidos arnezes Os ardidos soldados Das lagrimosas Mãis em vão chamados.

Que dias florecentes Ao vosso fiel povo preparastes! Quando com mãos prudentes O pezo dos negocios espalhastes Sobre os hombros robustos De Ministros inteiros, sabios, justos.

Gemêo maniatado Longo tempo o infeliz merecimento; Mas já, o collo alçado, Sacode o negro pó do esquecimento, E a virtude innocente De illustres palmas lhe coroa a frente.

Já vingadas seráõ Do vil tutor as timidas donzellas; Já não erguem em vão As mãos, e os tristes olhos ás estrellas; Nua de falsidade Aos ouvidos dos Reis chega a verdade.

Mil louvores lhe cantão, O limpo coração pondo no rosto: E n'alma lhe levantão Novo Throno, sobre ella melhor posto, Que entre espessas falanges, Que sobre ouro, ou perolas do Ganges.

Novos Reis Soberanos, Que hoje as rédeas tomais do Reino vosso, Os Fastos Lusitanos Dirão de Vós o que eu dizer não posso: Vossa Augusta Memoria Abrirá largo campo á longa Historia.

Sem trabalho podeis Fazer feliz a gente Portugueza, Seguindo as santas leis, Que n'alma vos gravou a Natureza, A rara humanidade A incorrupta Justiça, a sã Verdade.

No dia dos Annos do Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de Angeja.