Portuguese poem
Memorial
A Suas Altezas.
Se os Principes nos são dados Para geral beneficio, E se o seu mais digno officio He ouvir os desgraçados:
Ouví minha desventura, E consentí que esta vez Se lastime a vossos pés Hum queixoso da ventura.
Sahirem humildes ais De hum peito singelo, e aberto, He o direito mais certo, Quando os Juizes são tais.
Fundadas sobre a verdade As minhas supplicas vão: Não peço por ambição, Peço por necessidade.
Em mim o cuidado cae De Irmãs postas em pobreza: A piedade, e a natureza Me fazem Irmão, e Pae.
Olhos em pranto banhados, Que eu sem dôr não posso ver, Vos fazem agora ler Estes versos mal limados.
São tristes Orfãs donzellas, E merecem suas dôres Que vós, Augustos Senhores, Hajais piedade dellas.
Por mais esforços que eu faça Como hei de dar-lhe favor, Se o seu triste bemfeitor Vive na mesma desgraça?
Da miseria as tirareis, Se eu da miseria sahir: Sobre muitos vai cahir O favor que me fazeis.
Vós, ó Augusta Princeza, Em quem o Ceo quiz juntar O melhor que pódem dar A fortuna, a natureza,
Tende dó de seu lamento; E dai a mão favoravel A hum sexo respeitavel, De que vós sois ornamento.
A petição que vos faço Não he de facil indulto; Para pouco, fora insulto Valer-me do Vosso braço.
Não he facil, mas he justa: E será bem despachada, Se huma vez apresentada For por Vós á Irmã Augusta.
Principes, tende piedade: Ponde a meus queixumes pausa: Protegei na minha causa A causa da humanidade.
O que de Tito se diz, Hum Rei Vosso Avô dizia; Chamava perdido o dia, Se não fez alguem feliz.
Motivo de tristes ais Quaesquer mãos o pódem dar; Más venturas emendar Só pertence a mãos Reais.
Dos homens, inda que ingratos, Ouve Deos os rogos justos: Vós, ó Principes Augustos, Sois na terra os seus retratos.
Mas já o tempo opportuno Apressa as azas escassas, E não devo ás mais desgraças Ajuntar a de importuno.
Acabe a triste escriptura, Digna por tal de piedade: Eu dei-lhe pranto, e verdade, Vós podeis dar-lhe ventura.
No dia dos Annos do Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde.
Não venho dourar enganos; A vida não he louvor; Pois tambem vivem Tyrannos: Eu venho, illustre Senhor Louvar obras, e não annos.
De homem commum não se exime Quem não tem virtudes claras: He pouco fugir do crime: Consagrão-se as almas raras A trabalho mais sublime;
A trabalho heroico: e creio Pelo provado aforismo, Que em sãos Filosofos leio, Que o verdadeiro heroismo He fazer o bem alheio.
Taes trabalhos honra dão Á digna mão que os procura: Não amo Heróes da ambição: Buscão a sua ventura; Vós buscais a da Nação.
Serem por vós levantados Os talentos esquecidos; Do triste os ais desprezados Serem aos Reaes Ouvidos Pelas vossas mãos levados;
De quem a vós se acolheo, Remediar o queixume; Ter como proprio o mal seu; He este o vosso costume, E o genio que o Ceo vos deo.
E o Throno aos Povos propicio, Que vigia em seu favor, Fez-lhe o geral beneficio De mandar, que em vós, Senhor, O que he genio fosse Officio.
Partio Officios pezados Com quem os servisse bem: São projectos acertados: Quem do Throno o sangue tem, Tenha tambem os cuidados.
Dai aos gratos Lusitanos Longo tempo Mão segura Contra injustiças, e enganos; E seja a sua ventura O louvor dos vossos Annos.
Mas, Senhor, moços Poetas Vinguem meus esforços vãos: Musas zombão de Jarretas: Pedem-me as tremulas mãos, Mais do que Lyra, muletas.
Fogosos Vates emprehendão Altos vôos neste dia: Musas com Musas contendão: Sáião Odes á porfia; E queira Deos que se entendão.