Portuguese poem
Carta
Sobre o mesmo Assumpto.
Senhor, assim que eu largar A baetal fatiota minha, Vou beijar as pias lágeas Da vossa farta Cozinha;
Não foi attento Hespanhol, Receitando amarga quina, Quem venceo meu mal co'as armas Da fallivel Medicina;
[Nota de rodapé 10: Medico.]
Vós sabeis traçar receitas Mais gratas, e mais felizes: Curárão-me oppostos males Bem applicadas Perdizes;
Humas o appetite abrírão, Outras socêgo lhe dão; Sarárão as duas chagas Co'pêllo do mesmo cão:
Dizem linguas inimigas, Que esta doença he ficticia; E os Práticos do meu pulso A capitúlão malicia.
Que em meu capote abafadas Estas goellas felizes, Em vez de cozerem lynfas, Estão armando ás Perdizes;
Senhor, não devo atalhar Este conjurado assédio; Porque era, provar doença, Ingratidão ao remédio;
Só digo, que não ganhais, Dando ouvido ás vozes suas; Aqui dais-me huma Perdiz, E se lá vou, tiro duas.
CARTA.
Bom Sobral, o que eu te disse He, a meu pezar, verdade; Sonóros, amenos versos, São obra da Mocidade;
Mandaste que em Crescentini; Louvando a doce harmonia, O que o Mundo diz em proza, Eu lho enfeitasse em Poezia;
Que invocando as brandas Muzas, Encostada ao peito a Lyra; Cante os ternos sentimentos, Que elle nas almas inspira;
Môço Sobral, tu ignoras Da inerte velhice os damnos; Nesta fria testa brigão, Co'teu preceito, os meus annos:
Que importa, que a huma orelha A tua voz respeitada Me mande afinar a Lyra Ha dez annos pendurada,
Se á outra me diz Apollo, Que eu sou já dos reformados; Que em seu Tribunal não tornão A servir Apozentados?
Longa idade, he longo mal; Velho, só he bom o Amigo; O teu mesmo Crescentini Ha de provar o que eu digo:
Este homem, que a seu arbitrio Move as humanas paixões; Que traz na sua voz o sceptro Dos sensiveis corações;
Que nos deixa duvidozos Quaes forças maiores são, Se os encantos da harmonia, Ou se a viveza da acção;
Que em mim, que sou homem duro, E rebelde ás Leis primeiras; Que não chóro nos mais homens As desgraças verdadeiras;
Que, insensivel, vi no Circo Burlesco Neto arrastado Deixar co'a rôta cabeça O terreno ensanguentado;
Que vejo com olhos seccos, Com firme semblante inteiro, Fugir-me n'um parolim O meu ultimo dinheiro;
Que em mim, digo, arranca pranto; Que amolga hum peito de seixo; Que muita vez co'chapeo Encubro o trêmulo queixo;
Que quando dos tenros Filhos Chorava o triste destino, Tinha este peito de bronze O coração de Sabino;
Este homem, que solto o panno, Vivas vem á força ouvir; Se cantar de hoje a déz lustros, Em vez de chorar, faz rir;
Sobre os levantados áres A envergonhada Harmonia, Batendo apressadas azas, Do seu Filho fugiria;
E o Jeronymo estendido Co'as pernas nos tamboretes, Cabeceára entre as rimas Dos ociozos bilhetes;
[Nota de rodapé 11: O Vendedor dos bilhetes.]
E cuidavas tu, que a foice Que a taes dons ha de pôr fim, Que ha de ferir Crescentini, Me tinha poupado a mim?
Se eu hoje fosse aos Oiteiros, Onde já tive elogios, Dir-me-hião crueis verdades Mil sinceros assobios;
Este Genio dos Poetas He fugitivo, e mesquinho; A' primeira cam nos deixa Na ametade do caminho;
Não he irmão do teu Genio, Este estende mão segura; Acompanha os seus Valídos A' borda da sepultura;
Fará que sempre as desgraças Em tristes peitos emendes; Que sigas sempre os exemplos, Que dentro de caza aprendes;
Lastima, pois, minhas rugas, Que até me cauzão o mal De faltar ao teu preceito, E a louvar hum homem tal;
Mas vasto, cheio Theatro, Que elle encalma em tempo frio, Falla melhor, que dez Odes, He mais util elogio;
E nelle estas velhas mãos Co'as forças que nascem d'alma, Darão, em lugar de Versos Muito pinto, e muito palma.
[Nota de rodapé 12: Cruzado novo.]