Portuguese poem
Carta
A hum Amigo, louvando-lhe o estado de cazado.
Foi este o ditozo dia, Que te deo a Espoza bella; Doce, sólida alegria, Para ti, junto com ella, No mesmo berço nascia;
Por tua maior ventura, Natureza lhe quiz pôr, Entre os Dons da Formozura, Outro dote inda maior, Que he, alma innocente, e pura;
Eu sei teu costume antigo, A Mulher, que he só formoza, Não vale tudo comtigo; Soubeste escolher Espoza, Em quem tens Espoza, e Amigo;
Quer sempre ter hum Senhor Nosso humano coração; E na ventura maior Inda sente em si hum vão, Que só enche o casto amor;
De quantos males te eximes, Dando ao teu tão bom Senhor? Damnozas paixões reprimes; Recebes das mãos do Amor Os prazeres, sem os crimes;
Céga mocidade errada, A' conjugal união Quiz chamar vida cansada; Diz que he triste escravidão, De mil pensões carregada.
Chama á paz hum dissabor; Diz, que de susto, e desdens Se alimenta o Deos de Amor; E que a certeza dos bens Lhes diminue o valor;
Fechão olhos á verdade, Caminhando apôs seus erros; E em falsa tranquilidade, Ao som de pezados ferros, Vão cantando liberdade;
Mil remórsos na alma estão, Que inda que o rosto os suffoca, Roendo as entranhas vão; Que importa rizo na boca, Se ha punhaes no coração?
Amor he fogo sublime, Que nas almas se accendeo; As outras paixões reprime; Elle he dadiva do Ceo, O abuzo he que o faz ser crime;
Beija, Amigo, os teus grilhões; Hum para o outro erão feitos Os vossos bons corações; Crava em vossos ternos peitos Santo Amor os seus farpões;
Onde achas pessoa estranha, Que não contrafaça o rosto, Porque vê, que assim te ganha? Quem he que na pena, ou gosto, Com verdade te acompanha?
Contas teus cazos sem medo A quem por amigo passa; Fiaste-te em rosto lêdo; Foste no meio da praça Assoalhar teu segredo;
Mal os homens conheceo Pura amizade enganada, O santo rosto escondeo, E tornou-se envergonhada Para o Ceo, donde desceo;
O amigo que te rodeia, Véste das tuas paixões; Com ellas te lizonjeia; São raros os corações, Em que dôa dor alheia;
Quando acertares de ler, Que houve entre homens união, O Escritor a quiz fazer; Não os pintou como são; Mas como devião ser;
São coizas imaginadas Dos Nizos o amor profundo; São fábulas bem contadas; Ou os não houve no Mundo, Ou não deixárão pégadas;
Puro amor, limpa verdade, Só entre Esposos estão; Desce a elles a Amizade; Traz-lhes co'a santa união Huma só alma, e vontade;
Communica á Espoza amada Teus mais internos cuidados; E vive em paz descançada A vida dos bem cazados, Vida bemaventurada;
Sem receio de perigo Dorme sono saborozo; Que não tens junto comtigo; Lisonjeiro suspeitozo, Traidor, com rosto de amigo;
Tens por doce companhia Aquella, que o justo Ceo Com mil virtudes te invia; Tu es o cuidado seu, E como seu, te vigia;
Goza em socego profundo Tão pura felicidade; Tens hum thezoiro fecundo; Tens amor, tens amizade, Tens todos os bens do Mundo.
E se ha entre homens desvelo (Coiza que aqui contradigo) Conta com hum, que he singelo; E foi sempre teu amigo, Quanto os homens podem sêlo.