Portuguese poem
A Canção de Romeu
by Olavo Bilac (1865–1918)
Abre a janela... acorda! Que eu, só por te acordar, Vou pulsando a guitarra, corda a corda, Ao luar!
As estrelas surgiram Todas: e o limpo véu, Como lírios alvíssimos, cobriram Do céu.
De todas a mais bela Não veio inda, porém: Falta uma estrela... És tu! Abre a janela, E vem!
A alva cortina ansiosa Do leito entreabre; e, ao chão Saltando, o ouvido presta à harmoniosa Canção.
Solta os cabelos cheios De aroma: e seminus, Surjam formosos, trêmulos, teus seios À luz.
Repousa o espaço mudo; Nem uma aragem, vês? Tudo é silêncio, tudo calma, tudo Mudez.
Abre a janela, acorda! Que eu, só por te acordar, Vou pulsando a guitarra corda a corda, Ao luar!
Que puro céu! que pura Noite! nem um rumor.. Só a guitarra em minhas mãos murmura: Amor!...
Não foi o vento brando Que ouviste soar aqui: É o choro da guitarra, perguntando Por ti.
Não foi a ave que ouviste Chilrando no jardim: É a guitarra que geme e trila triste Assim.
Vem, que esta voz secreta É o canto de Romeu! Acorda! quem te chama, Julieta, Sou eu!
Porém... Ó cotovia, Silêncio! a aurora, em véus De névoa e rosas, não desdobre o dia Nos céus...
Silêncio! que ela acorda... Já fulge o seu olhar... Adormeça a guitarra, corda a corda, Ao luar!