Portuguese poem
Manhã de Verão
by Olavo Bilac (1865–1918)
As nuvens, que, em bulcões, sobre o rio rodavam, Já, com o vir da manhã, do rio se levantam. Como ontem, sob a chuva, estas águas choravam! E hoje, saudando o sol, como estas águas cantam!
A estrela, que ficou por último velando, Noiva que espera o noivo e suspira em segredo, - Desmaia de pudor, apaga, palpitando, A pupila amorosa, e estremece de medo.
Há pelo Paraíba um sussurro de vozes, Tremor de seios nus, corpos brancos luzindo... E, alvas, a cavalgar broncos monstros ferozes, Passam, como num sonho, as náiades fugindo.
A rosa, que acordou sob as ramas cheirosas, Diz-me: "Acorda com um beijo as outras flores quietas! Poeta! Deus criou as mulheres e as rosas Para os beijos do sol e os beijos dos poetas!"
E a ave diz: "Sabes tu? conheço-a bem... Parece Que os Gênios de Oberon bailam pelo ar dispersos, E que o céu se abre todo, e que a terra floresce, - Quando ela principia a recitar teus versos!»
E diz a luz: "Conheço a cor daquela boca! Bem conheço a maciez daquelas mãos pequenas! Não fosse ela aos jardins roubar, trêfega e louca, O rubor da papoula e o alvor das açucenas!"
Diz a palmeira: "Invejo-a! ao vir a luz radiante, Vem o vento agitar-me e desnastrar-me a coma: E eu pelo vento envio ao seu cabelo ondeante Todo o meu esplendor e todo o meu aroma!"
E a floresta, que canta, e o sol, que abre a coroa De ouro fulvo, espancando a matutina bruma, E o lírio, que estremece, e o pássaro, que voa, E a água, cheia de sons e de flocos de espuma,
Tudo, - a cor, o dano, o perfume e o gorjeio, Tudo, elevando a voz, nesta manhã de estio, Diz: "Pudesses dormir, poeta! no seu seio, Curvo como este céu, manso como este rio!"