Portuguese poem
Coro
by Raimundo António de Bulhão Pato (1828–1912)
O Bom Deus que proteje a innocencia, De quem são nossos cantos de amor; Desherdada é sómente a existencia, Do infeliz que descrê do Senhor!
Onde o bem? Onde o mal? nós no mundo Como iremos a vida encontrar? Neste valle enredado e profundo Quem nos ha de o caminho apontar?
O Bom Deus que proteje a innocencia, De quem são nossos cantos de amor; Desherdada é sómente a existencia, Do infeliz que descrê do Senhor!
Quem virá ser-nos pae na orphandade? Consolar nossos dias de dor? Circundar-nos depois noutra edade, De delicias, de sonhos, de amor?
O Bom Deus que proteje a innocencia, De quem são nossos cantos de amor; Desherdada é sómente a existencia, Do infeliz que descrê do Senhor!
Dos thesouros de affecto que encerra Entre vós maternal coração, Quem vos faz a nós orphãos na terra, Repartir d'esse affecto um quinhão?
O bom Deus que proteje a innocencia, De quem são nossos cantos de amor; Desherdada é sómente a existencia, Do infeliz que descrê do Senhor!
E esse affecto ideal que illumina O existir de um reflexo do ceo, Que a soffrer e que a amar nos ensina, Quem no peito materno o accendeu?
O Bom Deus que proteje a innocencia, De quem são nossos cantos de amor; Desherdada é sómente a existencia, Do infeliz que descrê do Senhor!
Mas nós crêmos, sentimos, amâmos, A Deus grande na terra e nos ceos, E do intimo da alma exclamâmos: Gloria a Deus! Gloria a Deus! Gloria a Deus!
1850.