Portuguese poem
Job
by Raimundo Correia (1859–1911)
Quem vai passando, sinta Nojo embora, ali pára. Ao princípio era um só; Depois dez, vinte, trinta Mulheres e homens... tudo a contemplar o Job.
Qual fixa boquiaberto; Qual à distância vê; qual se aproxima altivo, Para olhar mais de perto Esse pântano humano, esse monturo vivo.
Grossa turba o rodeia... E o que mais horroriza é vê-lo a mendigar, E ninguém ter a idéia De um só vintém às mãos roídas lhe atirar!
Não! Nem ver que a indigência Em pasto o muda já de vermes; e lhe impera, Na imunda florescência Do corpo, a podridão em plena primavera;
Nem ver sobre ele, em bando, Os moscardos cruéis de ríspidos ferrões, Incômodos, cantando A música feral das decomposições;
Nem ver que, entre os destroços De seus membros, a Morte, em blasfêmias e pragas, Descarnando-lhe os ossos, Os dentes mostra a rir, pelas bocas das chagas;
Nem ver que só o escasso Roto andrajo, onde a lepra horrível que lhe prui Mal se encobre, e o pedaço De telha, com que a raspa, o mísero possui;
Nem do vento às rajadas Ver-lhe os farrapos vis da roupa flutuante, Voando—desfraldadas Bandeiras da miséria imensa e triunfante!
Nem ver... Job agoniza! Embora; isso não é o que horroriza mais. —O que mais horroriza São a falsa piedade, os fementidos ais;
São os consolos fúteis Da turba que o rodeia, e as palavras fingidas, Mais baixas, mais inúteis Do que a língua dos cães, lambendo-lhe as feridas;
Da turba que se, odienta, Com a pata brutal do seu orgulho vão Não nos magoa, inventa, Para nos magoar, a sua compaixão!
Se há, entre a luz e a treva, Um termo médio, e em tudo há um ponto mediano, É triste que não deva Haver isso também no coração humano!
Porque n'alma não há de Um meio termo haver dessa gente também, Entre a inveja e a piedade? Pois tem piedade só, quando inveja não tem!