Versos Portuguese Ricardo Reis Vós que, crentes em Cristos e Marias

Portuguese poem

Vós que, crentes em Cristos e Marias

by (1888–1935)

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Vós que, crentes em Cristos e Marias, Turvais da minha fonte as claras águas Só para me dizerdes Que há águas de outra espécie

Banhando prados com melhores horas Dessas outras regiões pra que falar-me Se estas águas e prados São de aqui e me agradam?

Esta realidade os deuses deram E para bem real a deram externa. Que serão os meus sonhos Mais que a obra dos deuses?

Deixai-me a Realidade do momento E os meus deuses tranqüilos e imediatos Que não moram no Vago Mas nos campos e rios.

Deixai-me a vida ir-se pagãmente Acompanhada pelas avenas tênues Com que os juncos das margens Se confessam de Pã.

Vivei nos vossos sonhos e deixai-me O altar imortal onde é meu culto E a visível presença Os meus próximos deuses.

Inúteis procos do melhor que a vida, Deixai a vida aos crentes mais antigos Que a Cristo e a sua cruz E Maria chorando.

Ceres, dona dos campos, me console E Apolo e Vênus, e Urano antigo E os trovões, com o interesse De irem da mão de Jove.