Portuguese poem
À Maria Augusta
by Ruy Barbosa (1849–1923)
Dantes o ondeado cabelo Deixavas-me sempre vê-lo Em longos anéis sombrios Nos ombros teus a chover. Pendia daqueles fios Minha alma de amores presa; E a vista, em volúpia acesa, Não se cansava de ver.
Como é que agora oprimido, Tão contrafeito e escondido, A nativa formosura Não lhe deixas expandir? Não vês que em teu rosto a alvura, Que os próprios lírios suplanta, Ri mais viva, mais encanta, Se o deixas solto cair.
Por que as lindas madeixas, Desfeitas baixar não deixas, De aroma inefável cheias Ao colo cândido e nu? Louquinha, que das cadeias, Com que os olhos cativas, Assim sem pena te privas! Criança ingênua que és tu!...
Olha as rosas nas roseiras Como se miram faceiras Naquelas tranças viçosas De que o estio as adornou: Se, pois, inveja nas rosas, Feiticeira linda, as passas, Por que desprezas as graças Com que Deus te avantajou?
Primores do céu não tolhas: As madeixas mais não colhas! Sedução tão graciosa Não na queiras tu perder! Em moldura caprichosa Deixa a coma deslumbrante, Livre, airosa, flutuante Tuas faces envolver!