Portuguese poem
Lyra XIII
by Tomás Antônio Gonzaga (1744–1810)
Oh! quantos riscos, Marilia bella, Não atropella Quem cégo arrasta Grilhões de Amor! Hum peito forte, De acordo falto, Zomba do assalto Do vil traidor.
O amante de Hero Da luz guiado, C'o peito ousado Na escura noite Rompia o mar, Se o Helesponto Se encapellava, Ah! não deixava De lhe ir fallar.
Do cantor Thracio A heroicidade Esta verdade, Minha Marilia, Prova tambem. Cheio de esfôrço Vai ao Cocyto Buscar afflito Seu doce bem.
Que acção tão grande Nunca intentada! Ao pé da entrada Já tudo assusta O coração! Pendentes rochas, Campos adustos, Que nem arbustos Nem hervas dão.
Na funda fralda De calvo monte, Corre Acheronte, Rio de ardente Mortal licor. Tem o barqueiro Testa enrugada, Vista inflammada, Que mete horror.
Que seguranças! Que fechaduras! As portas duras Não são de lenhos; De ferro são. Por tres gargantas, Quando alguem bate, Raivoso late O negro cão.
Dentro da cova Soão lamentos; E que tormentos Não mostra aos olhos A escassa luz! Minos a pena Manda se intime Igual ao crime, Que alli conduz.
Grande penedo Este carrega; E apenas chega Do monte ao cume, O faz rolar. A pedra sempre Ao valle desce, Sem que elle cesse De a ir buscar.
Nas limpas aguas Habita aquelle: Por cima delle Verdejão ramos, Que pomos dão. Debalde a bocca Molhar pertende; De balde estende Faminta mão.
Tem outro o peito Despedaçado: Monstro esfaimado Já mais descança De lho roêr. A rôxa carne, Que o abutre come, Não se consome, Torna a crescer.
Mas bem que tudo Pavor inspira, Tocando a lyra Desce ao Averno O bom Cantor. Não se entorpece A lingua, e braço; Não treme o passo, Não perde a côr.
Ah! tambem quanto Dirceo obrára, Se precisára, Marilia bella, Do esforço seu! Rompêra os mares C'o peito terno, Fôra ao Inferno, Subíra ao Ceo.
Aos dois amantes De Thracia, e Abydo Não deo Cupido Do que aos mais todos Maior valor. Por seus vassallos Forças reparte, Como lhes parte Os gráos de Amor.