Portuguese poem
Lyra XI
by Tomás Antônio Gonzaga (1744–1810)
Naõ toques, minha Musa, não, não toques Na sonorosa Lyra, Que ás almas, como a minha, namoradas Doces Canções inspira: Assopra no clarim, que apenas sôa Enche de assombro a terra; Naquelle, a cujo som cantou Homero, Cantou Virgilio a Guerra.
Busquemos, ó Musa, Empreza maior; Deixemos as ternas Fadigas de Amor.
Eu já não vejo as graças, de que fórma Cupido o seu thesouro: Vivos olhos, e faces côr da neve, Com crespos fios de ouro; Meus olhos só vem gramas, e loureiros; Vem carvalhos, e palmas; Vem os ramos honrosos, que destinguem As vencedoras almas.
Busquemos, ó Musa, Empreza maior; Deixemos as ternas Fadigas de Amor.
Cantemos o Heróe, que já no berço As Serpes despedaça; Que fere os Cácos, que destronca as Hidras, Mais os leões que abraça. Cantemos, se isto he pouco, a dura guerra Dos Tritães, e Tyféos, Que arrancão as montanhas, e atrevidos Levão armas aos Ceos.
Busquemos, ó Musa, Empreza maior; Deixemos as ternas Fadigas de amor.
Anima pois, ó Musa, o instrumento, Que a voz tambem levanto; Porém tu déste muito assima o ponto, Dirceo não póde tanto: Abaixa, minha Musa, o tom, que ergueste; Eu já, eu já te sigo. Mas, ah! vou a dizer Heróe, e Guerra, E só Marilia digo.
Deixemos, ó Musa, Empreza maior, Só posso seguir-te Cantando de Amor.
Feres as cordas d'ouro? Ah! sim, agora Meu canto já se afina; E a huma voz, parece que ao som dellas Se faz tambem divina. O mesmo que cercou de muro a Thebas Não canta assim tão terno; Nem póde competir comigo aquelle, Que desce ao negro Inferno.
Deixemos, ó Musa, Empreza maior, Só posso seguir-te Cantando de Amor.
Mal repito Marilia, as doces aves Mostrão signaes de espanto, Erguem os collos, voltão as cabeças, Parão o ledo canto; Move-se o tronco, o vento se suspende Pasma o gado, e não come: Quanto podem meus versos! Quanto póde Só de Marilia o nome!
Deixemos, ó Musa, Empreza maior; Só posso seguir-te Cantando de Amor.