Portuguese poem
Lyra X
by Tomás Antônio Gonzaga (1744–1810)
Arde o velho barril, arde a cabeça, Em honra de João na larga rua; O credulo Mortal agora indaga, Qual seja a sorte sua?
Eu não tenho alcaxofra, que á luz chegue, E nella orvalhe o Ceo de madrugada, Para ver se rebentão novas folhas, Aonde foi queimada.
Tambem não tenho hum ovo, que despeje Dentro de hum cópo d'agua, e possa nella Fingir Palacios grandes, altas Torres, E huma Náo á véla.
Mas, ah! em bem me lembre: eu tenho ouvido Que na boca hum bochecho d'agoa tome, E atráz de qualquer porta attento esteja, Até ouvir hum nome.
Que o nome, que primeiro ouvir, he esse O nome, que ha de ter a minha amada: Pode verdade ser, se fôr mentira, Tambem não custa nada.
Vou tudo executar, e de repente Ouvi dizer o nome de Filena: Despejo logo a boca: ah! não sei como Não morro alli de pena!
Apparece Cupido: então soltando Em ar de zombaria huma risada. E que tal, me pergunta, esteve a peça? Não foi bem pregada?
Eu já te disse, que Marilia he tua: Tu fazes do meu dito tanta conta, Que vais acreditar, o que te ensina Velha mulher já tonta.
Humilde lhe respondo: quem debaixo Do açoite da Fortuna afflito geme, Nas mesmas coisas, que só são brinquedos, Se agoirão males, teme.