Portuguese poem
Lyra VIII
by Tomás Antônio Gonzaga (1744–1810)
Eu vejo, ó minha bella, aquelle Numen, A quem o nome derão de Fortuna, Pega-me pelo braço, E com voz importuna Me diz que mova o passo; Que entre no grande Templo, em [~q] se encerra, Quanto o destino manda, Que ella obre sobre a terra.
Que coizas portentosas nelle encontro! Eu vejo a pobre fundação de Roma, Vejo-a queimar Carthago; Vejo que as gentes doma; E vejo o seu estrago. Lá florece o poder do Assyrio Povo: Aqui os Medos crescem E os perde hum braço novo.
Então me diz a Deosa: E que pertendes? Todas estas Medalhas vêr agora? Ah! não, não sejas louco! Espaço de annos fôra Para isto ainda pouco. Deixo estranhos successos; vem comigo, Verás quanto inda deve Acontecer comtigo.
Levou-me aonde estava a minha historia, Que toda me explicou com medo, e arte. Tirei-te libras de oiro Me diz, e quero dar-te Todo aquelle thesoiro. Não suspira por bens hum peito nobre: Sevéro lhe respondo. Vivo affeito a ser pobre.
Aqui me enruga a Deosa irada a testa; E fica sem fallar hum breve espaço. Alegra, alegra o rosto, Prosegue, alli te faço Restituir o posto. Respondo com ar de mofa, e tom sereno. Conheço-te, Fortuna, Posso morrer pequeno.
Aqui te dou, me diz, a tua amada. Então me banho todo de alegria Cuidei, me torna a cega, Que essa alma não queria Nem esta mesma entrega. He esse o bem, respondo, que me move; Mas este bem he santo, Vem só da mão de Jove.
Queria mais fallar; eu insoffrido Desta maneira rompo os seus accentos: Basta, Fortuna, basta; Estes breves momentos Lá noutras coizas gasta; Da minha sorte nada mais contemplo. E chamando Marilia Suspiro, e deixo o Templo.