Versos Portuguese Tomás Antônio Gonzaga Lyra VII

Portuguese poem

Lyra VII

by (1744–1810)

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Tu, formosa Marilia, já fizeste Com teus olhos ditosas as campinas, Do turvo Ribeirão em que nasceste: Deixa, Marilia, agora As já lavradas terras; Anda affoita romper os grossos mares, Anda encher de alegria estranhas terras. Ah! que por ti suspírão Os meus saudosos lares.

Não corres como Sapho sem ventura Em seguimento de hum cruel ingrato, Que não sede aos encantos da ternura: Segues a hum fino amante, Que a perder-te morria. Quebra os grilhões do sangue, e vem, ó bella; Tu já foste no Sul a minha guia. Ah! deves ser no Norte Também a minha Estrella.

Verás ao Deos Neptuno socegado Aplainar co' tridente as crespas ondas; Ficar como dormindo o mar salgado. Verás, verás d' alheta Soprar o brando vento, Mover-se o léme, disrinzar-se o linho, Seguirem os Delfins o movimento, Que leva na carreira O empavezado pinho.

Verás como o Leão na prôa arfando Converte em branca espuma as negras ondas E as talha, e corta com murmurio brando. Verás, verás Marilia Da janella dourada, Que huma comprida estrada representa A linfa cristalina, que pizada Pela poupa que foge Em borbotões rebenta.

Bruto peixe verás de corpo immenso, Tornar ao torto anzol depois de o terem Pela rasgada boca ao ar suspenso: Os pequenos peixinhos Quaes passaros voarem: De toninhas verás o mar coalhado, Ora surgirem, ora mergulharem, Fingindo ao longe as ondas Que fórma o vento irado.

Verás que o grande monstro se apresenta Hum repuxo formando com as aguas, Que ao ar espalha da robusta venta. Verás em fim, Marilia, As nuvens levantadas Humas de côr azul, ou mais escuras, Outras de côr de rosa, ou prateadas Fazerem no Orizonte Mil diversas figuras.

Mal chegares á foz do claro Téjo, Apenas elle vir o teu semblante Dará no léme do baixel hum beijo. Eu lhe direi vaidoso: Não trago, não comigo Nem pedras de valor, nem montes d'ouro, Roubei as aureas Minas, e consigo Trazer para os teus cofres Este maior Thesouro.