Portuguese poem
Lyra XIV
by Tomás Antônio Gonzaga (1744–1810)
Minha bella Marilia, tudo passa; A sorte deste mundo he mal segura; Se vem depois dos males a ventura, Vem depois dos prazeres a desgraça. Estão os mesmos Deoses Sujeitos ao poder do impio Fado: Apollo já fugio do Ceo brilhante, Já foi Pastor de gado.
A devorante mão da negra Morte Acaba de roubar o bem, que temos; Até na triste campa não podemos Zombar do braço da inconstante sorte. Qual fica no sepulchro, Que seus a vós erguêrão, descançando: Qual no campo, e lhe arranca os frios casos Ferro do torto arado.
Ah! em quanto os Destinos impiedosos Não voltão contra nós a face irada, Façamos, sim façamos, doce amada, Os nossos breves dias mais ditosos. Hum coração que frouxo A grata posse de seu bem difere, A si, Marilia, a si proprio rouba, E a si proprio fere.
Ornemos nossas testas com as flores, E façamos de feno hum brando leito, Prendamo-nos, Marilia, em laço estreito, Gozemos do prazer de sãos Amores. Sobre as nossas cabeças, Sem que o possão deter, o tempo corre; E para nós o tempo, que se passa, Tambem, Marilia, morre.
Com os annos, Marilia, o gôsto falta, E se entorpece o corpo já cançado; Triste o velho cordeiro está deitado, E o leve filho sempre alegre salta. A mesma formosura He dote, que só goza a mocidade: Rugão-se as faces, o cabello alveja, Mal chega a longa idade.
Que havemos d'esperar, Marilia bella? Que vão passando os florecentes dias? As glorias, que vem tarde, já vem frias; E póde em fim mudar-se a nossa estrella. Ah! não, minha Marilia, Aproveite-se o tempo, antes que faça O estrago de roubar ao corpo as forças, E ao semblante a graça.