Versos Portuguese Tomás Antônio Gonzaga Lyra XV

Portuguese poem

Lyra XV

by (1744–1810)

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Eu, Marilia, não fui nenhum Vaqueiro; Fui honrado Pastor da tua Aldêa; Vestia finas lãns, e tinha sempre A minha chóça do preciso chêa. Tirarão-me o casal, e o manso gado, Nem tenho a que me encoste hum só cajado.

Para ter, que te dar, he que eu queria De mór rebanho ainda ser o dono; Prezava o teu semblante, os teus cabellos Ainda muito mais que hum grande Throno. Agora que te offerte já não vejo Além de hum puro amor, de hum são desejo.

Se o rio levantado me causava Levando a sementeira prejuiso, Eu alegre ficava apenas via Na tua breve boca hum ar de riso. Tudo agora perdi; nem tenho o gosto De ver-te ao menos compassivo o rosto.

Propunha-me dormir no teu regaço As quentes horas da comprida sésta, Escrever teus louvores nos olmeiros, Toucar-te de papoilas na floresta. Julgou o justo Ceo, que não covinha Que a tanto gráo subisse a gloria minha.

Ah, minha bella, se a Fortuna volta, Se o bem que já perdi alcanço, e provo; Por essas brancas mãos, por essas faces Te juro renascer hum homem novo; Romper a nuvem que os meus olhos cerra, Amar no Ceo a Jove, e ati na terra.

Fiadas comprarei as ovelhinhas, Que pagarei dos poucos do meu ganho; E dentro em pouco tempo nos veremos Senhores outra vez de hum bom rebanho. Para o contagio lhe não dar sobeja Que as affague Marilia, ou só que as veja.

Se não tivermos lans, e pelles finas, Podem mui bem cobrir as carnes nossas As pelles dos cordeiros mal cortidas, E os pannos feitos com as lans mais grossas. Mas ao menos será o teu vestido Por mãos de Amor, por minhas mãos cozido.

Nós iremos pescar na quente sésta Com canas, e com cêstos os peixinhos: Nós iremos caçar nas manhãs frias Com a vara envisgada os passarinhos; Para nos divertir faremos quanto Reputa o varão sabio, honesto, e santo.

Nas noites de serão nos sentaremos C'os filhos se os tivermos á fogueira; Entre as falsas historias, que contares, Lhes contarás a minha verdadeira: Pasmados te ouviráõ; eu entre tanto Ainda o rosto banharei de pranto.

Quando passarmos juntos pela rua Nos mostraráõ c'o dedo os mais Pastores, Dizendo huns para os outros: olha os nossos Exemplos da desgraça, e sãos amores. Contentes viviremos desta sorte, Até que chegue a hum dos dois a morte.