Portuguese poem
Lyra XVI
by Tomás Antônio Gonzaga (1744–1810)
Vejo, Marilia, Que o nédeo gado Anda disperso No monte, e prado; Que assim succede Ao desgraçado, Que a perder chega O seu Pastor. Mas inda soffro A viva dôr.
Tambem conheço, Que os Pegureiros, Que apascentavão Os meus cordeiros, Darão suspiros E verdadeiros; Porque perdêrão Hum pai no amor. Mas inda soffro A viva dôr.
Eu mais alcanço; Que a minha herdade Estando eu prezo, Soffrer não ha-de Nem a charrua, E nem a grade; Que a mão lhe falta Do Lavrador. Mas inda soffro A viva dôr.
Mas quando sobe Á minha idéa, Que tu ficaste Lá nessa Aldêa. De mil cuidados E mágoa cheia; Das paixões minhas Não sou senhor. Eu já não soffro A viva dôr.
A quanto chega A pena forte! Peza-me a vida, Desejo a morte, A Jove accuso, Maldigo a sorte, Trato a Cupido Por hum traidor. Eu já não soffro A viva dôr.
Mas este excesso Perdão merece, E delle Jove Se compadece; Que Jove, ó bella, Mui bem conhece, Aonde chega Paixão de amor. Eu já não soffro A viva dôr.