Portuguese poem
Lyra XVII
by Tomás Antônio Gonzaga (1744–1810)
Dirceo te deixa, ó bella, De padecer cançado: Frio suor já banha Seu rosto descórado; O sangue já não gyra pela vêa, Seus pulsos já não batem; E a clara luz dos olhos se bacêa: A lagrima sentida já lhe corre; Já pára a convulsão, suspira, e morre.
Seu espirito chega Onde se pune o erro: Late o cão, e se lhe abrem Grossos portões de ferro. Aos severos Juizes se apresenta; E com sentidas vozes Toda a sua tragedia representa: Enche-se de ternura, e novo espanto O mesmo inexoravel Rhadamantho.
Abre hum pasmado a boca, E a pedra não despede; Outro já não se lembra Da fome, e mais da sede: Descança o curvo bico, e a garra impia Negro abutre esfaimado: Nem a roca medonha a Parca fia, Até as mesmas Furias inclementes Deixão cahir das unhas as serpentes.
Já votão os Juizes; E o Rei Plutão lhe ordena Deixe o sitio, em que ficão Almas dignas de pena. Já sahe do escuro Reino, e da memoria Lhe passa tudo quanto Ou póde dar-lhe mágoa, ou dar-lhe gloria. Só, bem que o gosto as turvas agoas tome, Inda, Marilia, inda diz teu nome.
Entra já nos Elysios Campinas venturosas, Que mansos rios cortão, Que cobrem sempre as rosas. Escuta o canto das sonoras aves, E bebe as agoas puras, Que o mel, e de que o leite mais suaves. Aqui, diz elle, espero a minha bella, Aqui contente viverei com ella.
Aqui... porém aonde Me leva a dôr activa? He illusão desta alma. Jove inda quer que eu viva. Eu devo sim gosar teus doces laços; E em paga dos meus males Devo morrer, Marilia, nos teus braços. Então eu passarei ao Reino amigo; E tu irás despois lá ter comigo.