Versos Portuguese Tomás Antônio Gonzaga Lyra XX

Portuguese poem

Lyra XX

by (1744–1810)

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E me visses com teus olhos Nesta masmorra mettido; De mil idéas funestas, E cuidados combatido: Qual seria, ó minha bella, Qual seria o teu pezar?

Á força da dôr cedêra; E nem estaria vivo, Se o menino Deos vendado, Extremoso, e compassivo, Com o nome de Marilia Não me viesse animar.

Deixo a cama ao romper d'alva; O meio dia tem dado, E o cabello inda flutua Pelas costas desgrenhado. Não tenho valor, não tenho; Nem para de mim cuidar.

Diz-me Cupido: E Marilia; Não estima esse cabello? Se o deixas perder de todo Não se ha de enfadar ao vêllo? Suspiro pego no pente, Vou logo o cabello atar.

Vem hum taboleiro entrando De varios manjares cheio, Põe-se na meza a toalha, E eu pensativo passeio: De todo o comer esfria, Sem nelle poder tocar.

Eu entendo que matar-te, Diz Amor, te tens proposto; Fazes bem: terá Marilia Desgosto sobre desgosto. Qual enfermo c'o remedio Me afflijo, mas vou jantar.

Chegão as horas Marilia, Em que o Sol já se tem posto, Vem-me á memoria que nellas Via á janella o teu rosto: Reclino na mão a face E entro de novo a chorar.

Diz-me Cupido: Já basta, Já basta, Dirceo, de pranto; Em obsequio de Marilia Vai erguer teu doce canto. Pendem as fontes dos olhos, Mas eu sempre vou cantar.

Vem o Forçado accender-me A velha çuja candêa; Fica, Marilia, a masmorra Inda mais triste, e mais fêa. Nem mais canto, nem mais posso Huma só palavra dar.

Diz-me Cupido: São horas De escrever-se o que está feito; Do azeite, e da fumaça Huma nova tinta ageito, Tomo o páo, que penna finge, Vou as Lyras copiar.

Sem que chegue o leve sono Canta o Gallo a vez terceira; Eu digo ao Amor; que fico Sem deitar-me a noite inteira: Faço mimos, e promessas Para elle me acompanhar.

Elle diz que em dormir cuide, Que hei-de ver Marilia em sonho; Não respondo huma palavra, A dura cama componho, Apago a triste candêa, E vou-me logo deitar.

Como póde a taes cuidados Risistir, ó minha Bella, Quem não tem de Amor a graça? Se eu que vivo á sombra della Inda vivo desta sorte, Sempre triste a suspirar?