Versos Portuguese Tomás Antônio Gonzaga Lyra XXI

Portuguese poem

Lyra XXI

by (1744–1810)

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Não sei, Marilia, que tenho, Depois que vi o teu rosto; Pois quanto não he Marilia, Já não posso ver com gosto. Noutra idade me alegrava, Até quando conversava Com o mais rude vaqueiro: Hoje, ó bella, me aborrece Inda o trato lizongeiro Do mais discreto pastor. Que effeitos são os que sinto! Serão effeitos de amor?

Sáio da minha cabana Sem reparar no que faço; Busco o sitio aonde moras, Suspendo defronte o passo. Fito os olhos na janella, Aonde, Marilia bella, Tu chegas ao fim do dia; Se alguem passa, e te saúda, Bem que seja cortezia, Se accende na face a côr. Que effeitos são os que sinto! Serão effeitos de Amor?

Se estou, Marilia, comtigo, Não tenho hum leve cuidado; Nem me lembra, se são horas De levar á fonte o gado.

Se vivo de ti distante, Ao minuto, ao breve instante, Finge hum dia o meu desgosto: Já mais, Pastora, te vejo Que em teu semblante composto Não veja graça maior. Que effeitos são os que sinto! Serão effeitos de Amor?

Aonde já com o juizo; Marilia, tão perturbado, Que no mesmo aberto sulco Metto de novo o arado. Aqui no centêo pégo, Noutra parte em vão o cégo: Se alguem comigo conversa, Ou não respondo, ou respondo Noutra coiza tão diversa, Que nexo tão tem menor. Que effeitos são os que sinto! Serão effeitos de Amor?

Se geme o bufo agoureiro Só Marilia me desvella: Enche-se o peito de magoa, E não sei a causa della. Mal durmo, Marilia, sonho, Que féro leão medonho Te devora nos meus braços: Gella-se o sangue nas veias. E sólto do somno os laços Á força da immensa dor. Ah! que os effeitos que sinto Só são effeitos de Amor.