Portuguese poem
Lyra XXIII
by Tomás Antônio Gonzaga (1744–1810)
Não praguejes, Marilia, não praguejes A justiceira mão que lança os ferros: Não traz de balde a vingadora espada; Deve punir os erros.
Virtudes de Juiz, virtudes de homem As mãos se derão, e em seu peito morão. Mandão prender ao Réo austera a boca, Porém seus olhos chorão.
Se á innocencia denigre a vil calumnia Que culpa aquelle tem que applica a penna. Não he o Julgador, he o processo, E a lei quem nos condemna.
Só no Averno os Juizes não recebem Accusação, nem prova de outro humano; Aqui todos confessão suas culpas, Não póde haver engano.
Eu vejo as Furias affligindo aos tristes: Huma o fogo chega, outra as serpes move; Todos maldizem sim a sua estrella, Nenhum accusa a Jove.
Eu tambem inda adoro ao grande Chefe, Bem que a prizão me dá que eu não mereço. Qual eu sou, minha bella, não me trata, Trata-me qual pareço.
Quem suspira, Marilia, quando pune Ao vassallo que julga delinquente; Que gosto não terá podendo dar-lhe As honras de innocente?