Portuguese poem
Lyra XXIV
by Tomás Antônio Gonzaga (1744–1810)
Eu vou, Marilia, vou brigar co' as feras: Huma soltárão, eu lhe sinto os passos, Aqui aqui a espero Nestes despidos braços. He hum malhado tigre; a mim já corre, Ao peito o aperto, estalão-lhe as costelas, Desfallece, cahe, urra, treme, e morre.
Vem agora hum Leão: sacode a grenha, Com faminta paixão a mim se lança; Venha embora, que o pulso Ainda não se cança. Opprimo-lhe a garganta, a lingua estira, O corpo lhe fraquêa, os olhos inchão, Açoita o chão convulso, arqueja, e espira.
Mas que vejo, Marilia! tu te assustas? Entendes que os destinos inhumanos Expoem a minha vida No cêrco dos Romanos? Com ursos, e com onças eu não luto. Luto c'o bravo monstro que me accusa; Que os tigres, e leões mais féro, e bruto.
Embora contra mim raivoso esgrima Da vil calumnia a cortadora espada; Huma alma, qual eu tenho, Não se recêa a nada. Eu hei-de, sim, punir-lhe a insolencia, Pizar-lhe o negro cóllo, abrir-lhe o peito Co' as armas invenciveis da innocencia.
Ah, quando imaginar, que vingativo Mando que desça ao Tartaro profundo Hei-de com mão honrada Erguer-lhe o corpo immundo. Eu então lhe direi: Infame, indîno, Obras como costuma o vil humano; Faço o que faz hum coraçao divino.