Versos Portuguese Tomás Antônio Gonzaga Lyra XXV

Portuguese poem

Lyra XXV

by (1744–1810)

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O cego Cupido hum dia Com os seus Genios fallava, Do modo que lhe restava De captivar a Dirceo. Depois de larga disputa, Hum dos Genios mais sagazes Este conselho lhe dêo:

As settas mais aguçadas, Como se em roxa batessem, Dão nos seus peitos, e descem Todas quebradas ao chão. Só as graças de Marilia Podem vencer hum tão duro, Tão izento coração.

A fortuna desta empreza Consiste em armar-se o laço, Sem que sinta ser o braço, Que lho prepara, de Amor. Que elle vive como as aves, Que já deixárão as pennas No visco do Caçador.

Na força deste conselho O raivoso Deos socega, E á tropa a honra entrega De o fazer executar. Todos pertendem ganhá-la, Batem as azas ligeiros, E vão as armas buscar.

Os primeiros se occultárão Da Deosa nos olhos bellos; Qual se enlaçou nos cabellos; Qual ás faces se prendêo. Hum amorinho cansado Cahio dos labios ao seio, E nos peitos se escondêo.

Outro Genio mais astuto Este novo ardil alcança, Muda-se n'uma criança De divino parecer. Esconde as azas, e a venda; Esconde as settas, e quanto Póde dá-lo a conhecer.

Ella que vê hum menino Todo de graças cuberto, Tão risonho, e tão esperto Alli sózinho brincar. A elle endireita os passos; Finge Amor ter medo, e a Deosa Mais se empenha em lhe pegar.

Ella corria chamando; Elle fugia, e chorava: Assim forão onde estava O descuidado Pastor. Este, mal vio a belleza, E o gentil menino, entende A malicia do traidor.

Põe as mãos sobre os ouvidos, Cerra os olhos, e constante Não quer ver o seu semblante, Não o quer ouvir fallar. Qual Ulysses n'outra idade Para illudir as Serêas Mandou tambores tocar.

Cupido, que a empreza via, Julga o intento frustrado, E de raiva transportado O corpo no chão lançou. Traçou a lingoa nos dentes; Mettêo as unas no rosto, E os cabellos arrancou.

O Genio, que se escondia Entre os peitos da Pastora, Erguêo a cabeça fóra, E o successo conhecêo. Deixa o socego em que estava, E vai ligeiro metter-se No peito do bom Dirceo.

Apenas c'o brando peito Lhe tocou a neve fria, Com o calor que trazia Lhe abrazou o coração. Dá o Pastor hum suspiro, Abre os seus olhos, e sólta Do apertado ouvido a mão.

Logo que virão os Genios Ao triste Pastor disposto Para ver o lindo rosto, Para as palavras ouvir. Cada hum as armas toma, Cada hum com ellas busca Seu terno peito ferir.

Com os cabellos da Deosa Lhe fórma hum Cupido laços, Que lhe segurão os braços, Como se fossem grilhões. O Pastor já não resiste; Antes beija satisfeito As suas doces prizões.