Versos Portuguese Tomás Antônio Gonzaga Lyra XXVII

Portuguese poem

Lyra XXVII

by (1744–1810)

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Alexandre, Marilia, qual o rio Que engrossando no Inverno tudo arraza; Na frente das cohortes Cérca, vence, abraza As Cidades mais fortes. Foi na gloria das armas o primeiro, Morrêo na flor dos annos, e já tinha Vencido o mundo inteiro.

Mas este bom Soldado, cujo nome Não ha poder algum, que não abata, Foi, Marilia, sómente Hum ditozo pirata, Hum salteador valente. Se não tem huma fama baixa, e escura; Foi por se pôr ao lado da injustiça A insolente ventura.

O grande Cesar, cujo nome vôa, Á sua mesma Patria a fé quebranta; Na mão a espada toma, Opprime-lhe a garganta, Dá Senhores a Roma. Consegue ser heróe por hum delicto; Se acaso não vencesse então seria Hum vil traidor proscripto.

O ser heróe, Marilia, não consiste Em queimar os Imperios: move a guerra, Espalha o sangue humano, E despovoa a terra Tambem o máo tyranno. Consiste o ser heróe em viver justo: E tanto póde ser heróe o pobre, Como o maior Augusto.

Eu he que sou heróe, Marilia bella, Seguindo da virtude a honroza estrada. Ganhei, ganhei hum throno. Ah! não manchei a espada, Não a roubei ao dono. Ergui-o no teu peito, e nos teus braços: E valem muito mais que o mundo inteiro Huns tão ditosos laços.

Aos barbaros, injustos vencedores Atormentão remorsos, e cuidados; Nem descanção seguros Nos Palacios cercados De tropa, e de altos muros. E a quantos nos não mostra a sabia historia A quem mudou o fado em negro opprobrio A mal ganhada gloria?

Eu vivo, minha bella, sim, eu vivo Nos braços do descanço, e mais do gosto: Quando estou acordado, Contemplo no teu rosto De graças adornado; Se durmo logo sonho, e alli te vejo. Ah! nem desperto, nem dormindo sóbe A mais o meu desejo.