Portuguese poem
Lyra XXV
by Tomás Antônio Gonzaga (1744–1810)
Minha Marilia, O passarinho, A quem roubárão Ovos, e ninho, Mil vezes pousa No seu raminho, Piando finge Que anda a chorar. Mas logo vôa Pela espessura, Nem mais procura Este lugar.
Se acaso a vacca Perde a vitéla, Tambem nos mostra, Que se desvéla, O pasto deixa, Muge por ella, Até na estrada A vem buscar. Em poucos dias, Ao que parece, Della se esquece, E vai pastar.
O voraz Tempo, Que o ferro come, Que aos mesmos Reinos Devora o nome, Tambem, Marilia, Tambem consome Dentro do peito Qualquer pezar. Ah só não póde Ao meu tormento Por hum momento Allivio dar.
Tambem, ó bella, Não ha quem viva Instantes breves Na chamma activa; Derrete ao bronze Sendo excessiva Ao mesmo seixo Faz estalar. Mas do amianto A fêbra dura Na chamma atura Sem se queimar.
Tambem, Marilia, Não ha quem negue, Que bem que o fogo Nos oleos pegue, Que bem que em lingoas Ás nuvens chegue, Á força d'agoa Se ha de apagar. Se a negra pedra Nós accendemos, Com agoa a vemos Mais s'inflammar.
O meu discurso, Marilia, he resto: A pena iguala Ao meu affecto. O amor que nutro Ao teu aspecto, E o teu semblante He singular. Ah! nem o tempo, Nem inda a morte A dôr tão forte Pode acabar.