Portuguese poem
Lyra XXIX
by Tomás Antônio Gonzaga (1744–1810)
Eu descubro procurar-me Gentil mancebo, e loiro, Trazia a testa adornada Com folhas de verde loiro. Vejo ser o Pai das Musas, E me entrega a lyra d'oiro.
Já basta, me diz, ó filho, Já basta de sentimento; O cançado peixe exige Hum breve contentamento. Louva a formosa Marilia Ao som do meu instrumento.
Firo as cordas; mas que importa? A dôr não socega em tanto. Ergo a voz, então reparo Que quanto mais corre o pranto He mais doce, e mais sonoro Meu terno, e saudoso canto.
Apollo fitou os olhos Na mão, que regía o braço; E depois de estar suspenso, De me houvir hum largo espaço; Assim diz: o Deos Cupido Faz inda mais do que eu faço.
Eu te dou a minha lyra, Louva, louva a tua Bella; Porém vê que ta concedo Com condição, e cautella... Eu lhe corto a voz, dizendo, Que só canto em honra della.