Portuguese poem
Lyra XXVIII
by Tomás Antônio Gonzaga (1744–1810)
Deten-te, vil humano, Não espremas cicutas Para fazer-me damno. O çumo que ellas dão he pouco forte, Procura outras bebidas, Que apressem mais a morte.
Desce ao Reino profundo, Ajunta ahi venenos, Que nunca visse o mundo; Traze o negro licôr, que tem nos dentes, Nos dentes retorcidos As raivosas serpentes.
Cachopo levantado, Que pôz a Natureza, Dentro no Mar salgado, Não se abala no meio da tormenta, Bem que huma onda, e outra onda Sobre elle em flor rebenta.
Arvore, que na terra Ás robustas raizes, Buscando o centro, afferra, Não teme ao furacão mais violento; E menos se se deixa Vergar do rijo vento.
Sou tronco, e rócha, ó bella, Que açoita o Sul que brama, E o Mar, que se encapella: Não temas que do rosto a côr se mude: Vence as róchas, e os troncos A sólida Virtude.
A maior desventura He sempre a que nos lança No horror da sepultura: O cobarde a morrer tambem caminha; Com que males não póde Huma alma como a minha?