Portuguese poem
XXII (Muito embora, Marília, muito embora)
by Tomás Antônio Gonzaga (1744–1810)
Muito embora, Marília, muito embora Outra beleza que não seja a tua Com a vermelha roda, a seis puxada, Faça tremer a rua;
As paredes da sala aonde habita Adorne a seda, e o tremó dourado; Pendam largas cortinas, penda o lustre Do teto apainelado;
Tu não habitarás palácios grandes, Nem andarás nos coches voadores; Porém terás um Vate que te preze, Que cante os teus louvores.
O tempo não respeita a formosura, E da pálida morte a mão tirana Arrasa os edifícios dos Augustos E arrasa a vil choupana.
Que belezas, Marília, floresceram De quem nem sequer temos a memória! Só podem conservar um nome eterno Os versos ou a história.
Se não houvesse Tasso, nem Petrarca, Por mais que qualquer delas fosse linda, Já não sabia o mundo, se existiram Nem Laura, nem Clorinda.
É melhor, minha Bela, ser lembrada Por quantos hão de vir sábios humanos, Que ter urcos, ter coches e tesouros Que morrem com os anos.