Portuguese poem
XVII (Minha Marília)
by Tomás Antônio Gonzaga (1744–1810)
Minha Marília, Tu enfadada? Que mão ousada Perturbar pode A paz sagrada Do peito teu? Porém que muito Que irado esteja O teu semblante! Também troveja O claro Céu.
Eu sei, Marília, Que outra Pastora A toda hora, Em toda a parte Cega namora Ao teu Pastor. Há sempre fumo Aonde há fogo: Assim, Marília, Há zelos, logo Que existe amor.
Olha, Marília, Na fonte pura A tua alvura, A tua boca, E a compostura Das mais feições. Quem tem teu rosto Ah! não receia Que terno amante Solte a cadeia, Quebre os grilhões.
Não anda Laura Nestas campinas Sem as boninas No seu cabelo, Sem peles finas No seu jubão. Porém que importa? O rico asseio Não dá, Marília, Ao rosto feio A perfeição.
Quando apareces Na madrugada, Mal embrulhada Na larga roupa, E desgrenhada Sem fita, ou flor; Ah! que então brilha A natureza! Estão se mostra Tua beleza Inda maior.
O Céu formoso, Quando alumia O Sol de dia, Ou estrelado Noa noite fria, Parece bem. Também tem graça Quando amanhece; Até, Marília, Quando anoitece Também a tem.
Que tens, Marília, Que ela suspire! Que ela delire! Que corra os vales! Que os montes gire Louca de amor! Ela é que sente Esta desdita, E na repulsa Mais se acredita O teu Pastor.
Quando há, Marília, Alguma festa Lá na floresta, (Fala a verdade) dança com esta o bom Dirceu? E se ela o busca, Vendo buscar-se Não se levanta, Não vai sentar-se Ao lado teu?
Quando um por outro Na rua passa, Se ela diz graça, Ou muda o gesto, Esta negaça Faz-lhe impressão? Se está fronteira, E brandamente Lhe fita os olhos, Não põe prudente Os seus no chão?
Deixa o ciúme, Que te desvela: Marília bela, Nunca receies Dano daquela Que igual não for. Que mais desejas? Tens lindo aspecto; Dirceu se alenta De puro afeto, E pundonor.