Portuguese poem
XXXVII (Meu sonoro Passarinho)
by Tomás Antônio Gonzaga (1744–1810)
Meu sonoro Passarinho, Se sabes do meu tormento, E buscas dar-me, cantando, Um doce contentamento,
Ah! não cantes, mais não cantes, Se me queres ser propício; Eu te dou em que me faças Muito maior benefício.
Ergue o corpo, os ares rompe, Procura o Porto da Estrela, Sobe à serra, e se cansares, Descansa num tronco dela,
Toma de Minas a estrada, Na Igreja nova, que fica Ao direito lado, e segue Sempre firme a Vila Rica.
Entra nesta grande terra, Passa uma formosa ponte, Passa a segunda, a terceira Tem um palácio defronte.
Ele tem ao pé da porta Uma rasgada janela, É da sala, aonde assiste A minha Marília bela.
Para bem a conheceres, Eu te dou os sinais todos Do seu gesto, do seu talhe, Das suas feições, e modos.
O seu semblante é redondo, Sobrancelhas arqueadas, Negros e finos cabelos, Carnes de neve formadas.
A boca risonha, e breve, Suas faces cor-de-rosa, Numa palavra, a que vires Entre todas mais formosa.
Chega então ao seu ouvido, Dize, que sou quem te mando, Que vivo neta masmorra, Mas sem alívio penando.