Versos Portuguese Tomás Antônio Gonzaga XXXVIII (Eu vejo aquela Deusa)

Portuguese poem

XXXVIII (Eu vejo aquela Deusa)

by (1744–1810)

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Eu vejo aquela Deusa, Astreia pelos sábios nomeada; Traz nos olhos a venda, Balança numa mão, na outra espada. O vê-la não me causa um leve abalo, Mas, antes, atrevido, Eu a vou procurar, e assim lhe falo:

Qual é o povo, dize, Que comigo concorre no atentado? Americano Povo? O Povo mais fiel e mais honrado: Tira as Praças das mãos do injusto dono, Ele mesmo as submete De novo à sujeição do Luso Trono!

Eu vejo nas histórias Rendido Pernambuco aos Holandeses; Eu vejo saqueada Esta ilustre Cidade dos Franceses; Lá se derrama o sangue brasileiro; Aqui não basta, supre Das roubadas famílias o dinheiro...

Enquanto assim falava, Mostrava a Deusa não me ouvir com gosto; Punha-me a vista tesa, Enrugava o severo e aceso rosto. Não suspendo contudo no que digo; Sem o menor receio, Faço que a não entendo, e assim prossigo:

Acabou-se, tirana, A honra, o zelo deste Luso Povo? Não é aquele mesmo, Que estas ações obrou? É outro novo? E pode haver direito, que te mova A supor-nos culpados, Quando em nosso favor conspira a prova?

Há em Minas um homem, Ou por seu nascimento, ou seu tesouro, Que aos outros mover possa À força de respeito, à força d'ouro? Os bens de quantos julgas rebelados Podem manter na guerra, Por um ano sequer, a cem soldados?

Ama a gente assisada A honra, a vida, o cabedal tão pouco, Que ponha uma ação destas Nas mãos dum pobre, sem respeito e louco? E quando a comissão lhe confiasse, Não tinha pobre soma, Que por paga, ou esmola, lhe mandasse!

Nos limites de Minas, A quem se convidasse não havia? Ir-se-iam buscar sócios Na Colônia também, ou na Bahia? Está voltada a Corte brasileira Na terra dos Suíços, Onde as Potências vão erguer bandeira?

O mesmo autor do insulto Mais a riso, do que a temor me move; Dou-lhe nesta loucura, Podia-se fazer Netuno ou Jove. A prudência é tratá-lo por demente; Ou prendê-lo, ou entregá-lo Para dele zombar a moça gente.

Aqui, aqui a Deusa Um extenso suspiro aos ares solta; Repete outro suspiro, E sem palavra dar, as costas volta. Tu te irritas! Lhe digo e quem te ofende? Ainda nada ouviste Do que respeita a mim; sossega, atende.

E tinha que ofertar-me Um pequeno, abatido e novo Estado, Com as armas de fora, Com as suas próprias armas consternado? Achas também que sou tão pouco esperto, Que um bem tão contingente Me obrigasse a perder um bem já certo?

Não sou aquele mesmo, Que a extinção do débito pedia? Já viste levantado Quem à sombra da paz alegre ria? Um direito arriscado eu busco, e feio, E quero que se evite Toda a razão do insulto, e todo o meio?

Não sabes quanto apresso Os vagarosos dias da partida? Que a fortuna risonha, A mais formosos campos me convida? Daqui nem ouro quero; Quero levar somente os meus amores.

Eu, ó cega, não tenho Um grosso cabedal, do mais herdado: Não o recebi no emprego, Não tenho as instruções dum bom soldado, Far-me-iam os rebeldes o primeiro No império que se erguia À custa do seu sangue, e seu dinheiro?

Aqui, aqui de todo A Deusa se perturba, e mais se altera; Morde o seu próprio beiço; O sítio deixa, nada mais espera. Ah! vai-te, então lhe digo, vai-te embora; Melhor, minha Marília, Eu gastasse contigo mais esta hora.