Portuguese poem
XXXV (Se lá te chegarem)
by Tomás Antônio Gonzaga (1744–1810)
Se lá te chegarem Aos ternos ouvidos Uns tristes gemidos, Repara, Marília, Verás, que são meus. Ah! dá-lhes abrigo, Marília, nos peitos; Aqui os conserva Em laços estreitos, Unidos aos teus.
O vento ligeiro, De ouvi-los movido, Os pede a Cupido, Que a todos apanha, E lá tos vai pôr. Ah! não os desprezes, Porque se conspira O Céu em meu dano, E a glória me tira De honrado Pastor.
Têm suspiros Motivo dobrado; Perdi o meu gado; Perdi, que mais vale, O bem de te ver. Se os não receberes, Amante por ora, Por serem de um triste, Os deves, Pastora, Por honra acolher.
Virá, minha Bela, Virá uma idade, Que, vista a verdade, Gostosa me entregues O teu coração. Os crimes desonram, Se são existentes; Os ferros, que oprimem As mãos inocentes, Infames não são.
Chegando este dia, Os braços daremos: Então mandaremos De gosto, e ternura Suspiros aos Céus. Pôr-me-ão no sepulcro A honrosa inscrição: Se teve delito, Só foi a paixão, Que a todos faz réus.