Portuguese poem
Que pretende a fermosura
by Tomás Pinto Brandão (1664–1743)
MOTE Que pretende a fermosura Cuidando que se eterniza, Se viu a minha Belisa Ir parar na sepultura?
GLOSA Já a meu sentir e a meu ver a que ontem, a meu cegar, vivia para matar morre hoje para viver. Esta que a seu parecer era uma viva pintura já de morte cor figura na minha mágoa a contemplo. Não sei com tão claro exemplo que pretende a fermosura.
Na vivente primavera, quando mais disposta a vi, por maravilha entendi que perpétua ser pudera; foi engano e foi quimera da minha afeição precisa. E quanto esta morte avisa no desengano que dá a toda a que em flor está cuidando que se eterniza!
Hoje arrancada por si no exemplo que em folha dá a todas dizendo está: aprended flores de mi. Eu com lágrimas o li e entendo no bem que avisa que a que mais se fertiliza dela só pode aprender, porque não tem mais que ver se viu a minha Belisa.
Alerta, pois, divindades desmentidas em mulheres, que caducam por prazeres na melhor flor das idades. As pompas e as majestades que o mundo vos assegura são mentiras e é loucura não crer na mais verdadeira que é, acabando a carreira, ir parar na sepultura.